julho 04, 2020

Se eu soubesse que isso ia acontecer

Essa semana mandei um story antigo para um amigo, lembrando de onde estávamos há dois anos, e ele me respondeu: “Se eu soubesse que esse dia nunca mais voltaria, eu teria aproveitado mais”. Fiquei pensando um tempo quanta gente deve estar pensando a mesma coisa: “Se eu soubesse que isso ia acontecer…”.
Sabe aquela vez em que eu saí tarde do trabalho e um amigo me chamou para ir ao aniversário dele, mas eu não fui porque estava cansada? Eu teria ido. Eu teria feito também uma tatuagem nas costas. Aliás, uma só, não. Duas. Eu teria encontrado aquela amiga que falávamos “vamos marcar” há mais de seis meses. Teria visitado mais a minha avó no interior. Teria reunido mais os amigos em casa para tomar vinho e comer guacamole.
Teria me matriculado naquela aula de Yoga que eu já pedi a tabela de horários sete vezes pelo WhatsApp. Teria ficado com aquele menino bonitinho, mas que a gente pensa duas vezes em ficar só porque ele é coach [Brincadeira, tá? Exemplo meramente ilustrativo. Nunca deixei de ficar com ninguém por ser coach, já deixei de ficar por ser bolsominion].
Teria feito uma trilha de cinco dias no Vale do Pati, na Chapada Diamantina. Teria participado de um ritual chamado temazcal, onde as pessoas entram em uma sauna de pedra, mas, no dia, eu não quis participar porque estava com sono demais e com frio demais.
Teria saído com as amigas para festinhas [Tudo bem que eu acho festinha um saco, mas pelo menos estaria com as amigas]. Teria participado de todas as corridas de rua da cidade, aliás, teria corrido mais na rua e menos na esteira.
Teria ido naquele dia para a praia, mas que eu preferi ficar em casa vendo “Telefonistas” na Netflix, porque eu estava com muita preguiça.
Teria marcado happy hour com os colegas do ensino médico, do antigo trabalho, da pós em psicanálise, do pré-primário.
Teria ido para todas as palestras gratuitas, eventos no museu, roda de conversa, contação de estória, mesário do gato da minha tia, aula aberta, reunião do Brahma Kumaris, da Hinode, abertura de loja Herbalife que aquela menina meu deu um panfleto no elevador.
Não estou querendo dizer que depois da pandemia devemos viver como se não houvesse amanhã, mas que podemos nos permitir um pouco mais. Nem todo ambiente é agradável, nem todo grupo de pessoas é interessante, mas devemos nos dar a chance de pelo menos conhecer.
Se tem uma coisa que a pandemia me ensinou é que não existe nada mais importante que as pessoas e sem esse contato não há história, não há evolução, não há autoconhecimento, não há arte.
A pandemia nos tirou o que tínhamos de mais valioso para percebermos o quanto é fundamental. A gente não sabia que tudo isso ia acontecer, mas agora a gente sabe. Tomara que a gente se lembre.

maio 20, 2020

Quando o amor acaba

Um dia você percebe que os beijos já não são mais os mesmos, a admiração virou incômodo, a paixão se tornou compaixão e aquela pessoa não é mais o licor de cassis do seu creme de papaia.

Eis que, no caminho florido rumo ao mundo de Oz, surge uma bifurcação e cada um precisa tomar um rumo diferente, mas, na prática, não é tão simples assim. O fim de um relacionamento pode ser tão sufocante quanto escalar montanhas em grandes altitudes.

Ao escutar “não dá mais”, o amor cede espaço para a raiva e todos os momentos bons passam como flashes na cabeça daquele que foi rejeitado, com a certeza absoluta do quanto você só quis apenas “se aproveitar”. De repente, ele descobre que de nada adiantaram os dias ensolarados que vocês dividiram o mesmo sorvete e as músicas que escutaram durante as viagens nas férias. De repente, a garganta fica preenchida por cada grão de pipoca que vocês mastigaram no cinema, assistindo ao último filme de Woody Allen. Ele não consegue entender como você consegue ser tão cínico, mentiroso e incapaz de saber amar. Você se torna um assassino de sonhos, ladrão de tempo, usurpador de almas.

Por mais que você tenha todos os cuidados para terminar a relação sem machucar o outro, por mais que tente conversar, explicar os motivos de ter tomado aquela decisão, que tenha coragem de abrir seus sentimentos mais profundos e confessar suas maiores fraquezas, o indivíduo que foi rejeitado decide se tornar seu maior inimigo para o resto da vida.

Ele vai passar dias, meses, anos, escutando conselhos dos amigos e familiares sobre o quanto é um ser humano infinitamente melhor, mais inteligente, maduro e mais iluminado que você. Ele vai buscar todas as provas que garantam que você é a pessoa mais mau caráter da face da Terra e terá plena convicção de que você nunca vai encontrar alguém que te faça feliz. Ele vai traçar todo seu infeliz destino e construirá sua história ao longo dos anos com a certeza que você será uma pessoa sozinha e amargurada, terminando seus dias de vida num abrigo público para idosos.

Você imediatamente se tornará alguém ruim, egoísta, insensível, que não sabe dar valor às pessoas, que não sabe amar, que não gosta de ninguém. Ele vai torcer para que você nunca consiga conquistar seus objetivos, para que você se envolva nos piores relacionamentos, se case com um traficante, seja traída com a vizinha e abandonada com cinco filhos na fila do Bolsa Família e, nesse momento, lembre com arrependimento do dia em que você decidiu pôr um fim naquele relacionamento perfeito.

Ele vai fuçar suas redes sociais em busca de provas do quanto sua vida não tem o mínimo sentido sem a presença dele e vai perceber o quanto você é fútil, infantil e egoísta, se perguntando “como um dia conseguiu gostar de uma pessoa desprezível como você”.

Em casos mais graves, ele vai divulgar suas fotos íntimas na internet, vai te ameaçar de morte, vai abrir um processo na Justiça contra você ou até mesmo vai tentar o suicídio só para te deixar com remorso pelo resto da vida. Tudo isso, simplesmente, porque você decidiu que não quer mais viver sua vida ao lado daquela pessoa. Porque você optou por dar um fim a um relacionamento desgastado e resolveu tomar um novo rumo. Porque você exerceu o direito de escolha e foi buscar sua felicidade, agora terá que aguentar as consequências de uma vida fadada ao fracasso.

Não importa o quanto você foi legal, amigo, companheiro, o quanto cuidou da pessoa enquanto ela estava doente, o quanto escolheu a dedo um presente especial para o dia dos namorados, o tanto que fez questão de deixar um bilhetinho especial de surpresa: nada disso faz mais sentido. Com certeza, era tudo mentira. Você passou dias, meses, anos da sua vida alimentando as esperanças de um ser humano indefeso e agora vai ter que queimar no fogo do inferno ao lado de Hitler.

Terminar um relacionamento é assumir a responsabilidade pelas mágoas, traumas e frustrações do outro. É ser o bode expiatório das inseguranças alheias, o gatilho para aflorar as dores mais secretas. Talvez por isso tantos casais continuem juntos durante anos, suportando viver em uma pseudofelicidade.

Terminar um relacionamento é um dos maiores atos de coragem que um ser humano pode ter. É saber se reestruturar a partir da própria dor, enquanto assume a responsabilidade pela dor do outro.

Apesar de todas as consequências, eu ainda prefiro ser a vilã que ser infeliz. Saint-Exupéry que me perdoe, mas, tu te tornas eternamente responsável por aquilo que mantém na vida sem conseguir amar.

novembro 16, 2016

Sobre livros e pessoas

Certa vez li um texto do psicanalista Contardo Calligaris que dizia algo do tipo: “Quer escolher um psicanalista ou um psicoterapeuta? Verifique se ele lê literatura.”

O autor não se referia a Augusto Cury, Daniel Goleman, James Hunter ou outros queridinhos dos terapeutas. Ele se referia à literatura-literatura, obra de ficção, romance literário.

No mesmo texto, Calligaris cita uma pesquisa publicada na revista Science que dizia que ler ficção literária melhora a teoria da mente, ou seja, um termo usado na psicologia que, em linhas gerais, significa a capacidade de compreender e elaborar a mente alheia.

Segundo a pesquisa, o hábito de ler ficção faz com que você consiga compreender melhor as experiências dos personagens, desenvolvendo maior empatia e compaixão pelas outras pessoas.

O mais impressionante é como isso na prática faz todo sentido. Não adianta ler todas as teorias de Freud, Lacan ou Jung, se você não consegue se colocar no lugar de uma mulher que foi violentada sexualmente, de um pai de família que ficou desempregado e não sabe como pagar a contas, de uma prostituta do subúrbio que precisa vender o corpo para sustentar três filhos ou de uma trapezista do circo que sonha em deixar os picadeiros para morar em São Paulo e fazer faculdade de nutrição.

A literatura te aproxima de diferentes realidades e faz você perceber que somos todos personagens de um grande livro de ficção e, de certa forma, interpretamos esses personagens na maioria das vezes por vontade própria, outras, por imposição do roteirista.

A partir do momento em que eu retomei o hábito de ler literatura de ficção – estava em uma fase onde só lia crônicas – comecei a enxergar as pessoas com mais tolerância, muito mais do que se eu tivesse lido dez livros de Skinner.

Quando eu era mais nova, imaginava que existia um mundo paralelo, onde viviam todos os personagens das histórias da literatura. Como se todos eles realmente tivessem alma e vivessem em uma realidade explicada pela física quântica, onde você poderia encontrar Macabéa tomando um chá das cinco com Capitu, ou Hércules jogando uma partida de poker com Hamlet.

Da mesma forma, nós, que julgamos viver o mundo “real”, estamos aqui vendo Donald Trump ser eleito à presidência dos Estados Unidos, Bob Dylan ganhar o Nobel de literatura e Kim Kardashian fazer seis mil selfies durante viagem ao México, exatamente como personagens, protagonistas e coadjuvantes.

O fato é que o mundo (real e fictício) vive de histórias: é disso que somos feitos. Se não temos o hábito de consumir histórias na posição de leitores, seremos incapazes de nos reconhecer em nosso próprio enredo.

A literatura nos ensina muito mais do que compreender a complexidade de cada indivíduo. Ela nos leva a perceber que cinco minutos em uma fila pode durar um livro inteiro e cinquenta anos de um casamento podem constar em apenas um parágrafo.

O que importa mesmo é saber que sem virar a página não existe história e que finais virão inevitavelmente. E por mais estranhos ou imprevisíveis que pareçam, eles não são a melhor parte da obra. Serão sempre bonitos quando toda a história valer a pena.

dezembro 02, 2015

O dia em que conheci Martha Medeiros

Não sei você, mas eu sou uma fã incondicional de crônicas. Palavra de origem grega, derivada do deus Chronos (personificação do tempo), serve para denominar um gênero literário que narra um determinado fato, obedecendo a ordem cronológica dos acontecimentos. Nada de firula, elipse, flashback, nem tentativa de prêmio Nobel. É como um barulhinho simples e compassado, feito um tic tac de um relógio, um assobio de um pássaro, uma brisa que passa repentinamente no fim da tarde e balança sutilmente os galhos da árvore.

A primeira vez que escutei a palavra “frívola” foi num desses textos xerocados que o professor lê durante o ensino médio, explicando o que seria a crônica como gênero literário. Confesso que fiquei meio ofendida quando descobri que meu estilo preferido era considerado uma espécie de subliteratura.

O próprio Carlos Drummond de Andrade descreve em um trecho da crônica “O Frívolo Cronista”: “Pode ser um pé de chinelo, uma pétala de flor, duas conchinhas da praia, o salto de um gafanhoto, uma caricatura, o rebolado da corista, o assobio do rapaz da lavanderia.” Qualquer coisa pode virar crônica, por mais inútil que pareça. Essa característica faz desse tipo de texto algo tão simples que parece que você está batendo um papo despretensioso com o autor, na varanda de casa, tomando um cabernet sauvignon, daqueles mais baratinhos do supermercado.

Essa linguagem acessível, narrando fatos aparentemente óbvios do cotidiano, fez a crônica ganhar fama de gênero menor, muitas vezes até confundido com autoajuda. Mas é justamente aí que mora a graça da coisa. É exatamente essa linguagem coloquial que ajuda a criar intimidade com o leitor e faz a crônica ser tão próxima de nossa vida que parece aquele segredo contado exclusivamente pra você.

A crônica preenche nossa carência quando precisamos conviver com pessoas desinteressantes e densas, ela te diz até mesmo aquilo que você pensa e não consegue falar, ela organiza ideias, ela fala tudo que você queria ouvir do seu melhor amigo, do seu psicanalista ou da pessoa que está ao seu lado na fila do banco. Ela coloca poesia na rotina, sem usar métrica, rima e ritmo rebuscado.

Grandes escritores já navegaram pelos mares das crônicas, desde Machado de Assis a Clarice Lispector, Rubem Alves, João Ubaldo Ribeiro, Fernando Sabino, Luis Fernando Veríssimo, dentre tantos outros.

Se você é um fã assíduo de crônica, assim como eu, certamente já leu algum texto de Martha Medeiros. Quando eu soube que ela estaria na Festa Literária de Cachoeira (Flica) 2015, meu coração bateu igual aos dos fãs do Justin Bieber, armando barraca na porta da Arena Anhembi.

Ela não faz ideia do planejamento que eu fiz para conseguir participar da mesa redonda em que ela estaria presente. Desmarquei consultas, cancelei trabalhos, contratei um motorista com um mês de antecedência, não me abati nem pela dose alta de antibiótico que comecei a tomar por conta de uma infecção de garganta que começou na noite anterior.

Enquanto aguardava no final da fila de autógrafos pensei em mil coisas que poderia finalmente ter a oportunidade de dizer, mas a cada pessoa que chegava até a mesa da autora imaginava que aquela pessoa já diria tudo que eu queria falar.

Aquela ali disse que é muito fã. Essa falou que Martha descreve perfeitamente tudo que ela sente. Essa disse que sente como se ela fosse sua melhor amiga. Ficava calculando, como uma criança que conta carneirinhos antes de dormir.

Finalmente chegou a minha vez. Eu praticamente não disse nada. Mal consegui balbuciar apenas que vim de Salvador. Até o e-mail dela eu pedi pra minha amiga pedir, pois não tive coragem sequer de ter essa audácia. Será que era muita invasão de privacidade?

Logo eu, que achava que Martha Medeiros era uma espécie de melhor amiga virtual. Era tão íntima que já sabia qual a música que ela gostava, o livro preferido, a marca do carro que ela dirigia, até podia escutar o canto dos passarinhos que a acordavam às 4h da manhã.

Logo eu, que já comprei quase todos os livros, que já assisti todas as entrevistas no YouTube, que reconhecia cada texto postado no Facebook sem os devidos créditos, que já fucei todos os htmls da internet para encontrar um contato dela, que achava incrível a forma como ela terminava os textos, tipo aquele nó que dá um acabamento perfeito na bainha.

Não disse absolutamente nada. Não queria repetir tudo que ela já tinha escutado naquela noite, afinal, o que eu tinha pra dizer era tão frívolo, tão coloquial, tão despretensioso. Assim foi o meu encontro: completamente silencioso, diante de tantos pensamentos. Tímido como uma crônica, que parece desinteressante e superficial, mas que esconde nas estrelinhas as nuances da alma humana.

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