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janeiro 16, 2018

Petit Gateau

 

Tem uma frase de Jorge Luis Borges, no início da biografia de Freud, escrita por Elisabeth Roudinesco, que diz: “Um homem só morre efetivamente depois que o último homem que o conheceu morre também”.

Lembrei dessa frase no último domingo, quando meu filho pediu um petit gateau, como sobremesa, depois do almoço. Não que Jorge Luis Borges tenha nenhuma ligação com petit gateau, nem muito menos Freud, já que pelo menos até onde se sabe não há nenhum registro do pai da psicanálise degustando um bolinho francês ao lado de Charcot, enquanto estudava em Paris.

A frase veio à mente porque, ao provar um pedacinho da sobremesa, tive uma lembrança bem vívida da infância. Algum ingrediente daquele petit gateau, especificamente, era o mesmo que tinha nos bolos de uma senhora que fazia doces, lá numa cidadezinha do interior da Bahia, onde eu morava, no início da década de 90.

Me lembro pouco de Dona Catarina. Das raras lembranças que guardo na memória, me recordo que a porta da casa dela era de madeira e havia duas janelinhas, daquele modelo antigo que não faço a mínima ideia como se chama.

Uma das janelinhas ficava sempre aberta, por onde exalava um delicioso cheiro de algo parecido com baunilha, manteiga ou farinha láctea. Não consigo descrever exatamente, mas era um aroma que causava uma reação sinestésica, uma mistura de afeto, gentileza e muita, muita habilidade em fazer os melhores bolos da cidade.

É aí que entra a frase de Borges. Já se passaram mais de vinte anos o cheiro dos bolos de Dona Catarina ainda permanece na minha memória, mesmo sem ela estar fisicamente presente nesse planeta. Isso me fez pensar o quanto que é importante seguirmos os nossos verdadeiros dons, se quisermos viver o máximo de tempo possível, quiçá, tentarmos alcançar uma audaciosa imortalidade.

O tempo que você vive não é aquele em que você passa aproveitando as maravilhas do mundo ou degustando petits gâteaux, mas sim, o tempo que suas ideias e ações permanecem e ecoam nas gerações futuras.

Dona Catarina não precisou criar a Apple para marcar a vida de alguém. Ela não criou o bitcoin, não fundou startups, nunca fez stories no Instagram, não tinha currículo no LinkedIn, mas marcou minha infância e a de muita gente com algumas gotas de essência de baunilha e claras batidas em neve, o que só me faz crer que petit gateau talvez tenha mais a ver com Freud do que se imagina e que Jorge Luis Borges continua sendo um dos melhores escritores da atualidade.

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