Categoria: Crônicas

junho 09, 2018

O lado ruim de ser terapeuta

Quando alguém pergunta “quem é você?”, temos a tendência imediata de falar nossa profissão. Eu, por exemplo, sou mulher, mãe, leonina, bem-humorada, mimada, ciumenta, mas sempre que me perguntam quem sou, logo respondo: “jornalista”. É, definitivamente, algo que meu ego se identifica muito. Pelo menos tenho um diploma que prova isso, mas o que pouca gente sabe é que tenho uma segunda ocupação: terapeuta. Não digo profissão, pois não sou formada em psicologia. Fiz cursos de formação em terapias e especialização em psicanálise, mas não consigo incorporar o termo “terapeuta” na minha identidade com tanta facilidade. Não que eu me considere uma terapeuta ruim. Tive ótimas experiências atendendo em...

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janeiro 17, 2018

Tomar juízo

  Toda vez que eu termino de falar com minha avó, ao telefone, ela me deseja um monte de coisas boas e finaliza com a palavra “juízo”. Minha resposta é sempre a mesma: “Juízo eu não quero, não”. Nós damos risada, ela finge que ficou assustada com a resposta, mas deixa no ar aquele clima de cumplicidade, de quem sabe que no fundo eu tenho razão. O ritual já se repete há anos. Ela continua cumprindo seu papel de avó, me desejando uma boa dose de prudência na vida; eu continuo cumprindo meu papel de neta, garantindo meu lado cult rebelde; e nós continuamos cumprindo nosso papel em concordar...

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janeiro 16, 2018

Petit Gateau

  Tem uma frase de Jorge Luis Borges, no início da biografia de Freud, escrita por Elisabeth Roudinesco, que diz: “Um homem só morre efetivamente depois que o último homem que o conheceu morre também”. Lembrei dessa frase no último domingo, quando meu filho pediu um petit gateau, como sobremesa, depois do almoço. Não que Jorge Luis Borges tenha nenhuma ligação com petit gateau, nem muito menos Freud, já que pelo menos até onde se sabe não há nenhum registro do pai da psicanálise degustando um bolinho francês ao lado de Charcot, enquanto estudava em Paris. A frase veio à mente porque, ao provar um pedacinho da sobremesa, tive...

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novembro 16, 2016

Sobre livros e pessoas

Certa vez li um texto do psicanalista Contardo Calligaris que dizia algo do tipo: “Quer escolher um psicanalista ou um psicoterapeuta? Verifique se ele lê literatura.” O autor não se referia a Augusto Cury, Daniel Goleman, James Hunter ou outros queridinhos dos terapeutas. Ele se referia à literatura-literatura, obra de ficção, romance literário. No mesmo texto, Calligaris cita uma pesquisa publicada na revista Science que dizia que ler ficção literária melhora a teoria da mente, ou seja, um termo usado na psicologia que, em linhas gerais, significa a capacidade de compreender e elaborar a mente alheia. Segundo a pesquisa, o hábito de ler ficção faz com que você consiga...

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outubro 31, 2016

Gente é pra brilhar

Adoro aquela frase de Caetano Veloso que diz que “gente é pra brilhar”, pois é isso mesmo que eu acredito. O corpo humano, formado basicamente por oxigênio, hidrogênio, nitrogênio e carbono, contém o mesmo material pelo qual são formadas as estrelas. As estrelas brilham porque os gases encontrados em seu interior entram em fusão nuclear, liberando energia. Da mesma forma, o ser humano “brilha” quando ocorre um processo de “combustão” dentro dele, quando ele se sente completo, pleno e feliz. Nenhum ser humano nasceu pra sofrer. Observem as crianças: elas são cheias de vida, sabem bem o que querem e têm uma energia incrível. Se tem uma coisa que...

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outubro 30, 2016

Como assim, digital influencer?

Estava assistindo a um desses programas de beleza na TV e eis que aparece uma menina dando um depoimento, cuja legenda dizia “digital influencer”. Não lembro bem o nome dela, nem qual a dica que ela deu, já que meus neurônios ficaram um bom tempo em estado de inércia, atualizando o software. Claro que não foi a primeira vez que eu escutei o termo “digital influencer”, já tinha visto diversas outras vezes, mas ele vinha sempre como uma espécie de “subtítulo”. Fulana de tal, modelo e digital influencer; musa fitness e digital influencer; Youtuber, blogueira, palestrante, maquiadora, seja lá o que for e digital influencer… Agora “digital influencer”, puramente,...

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julho 14, 2016

Desperta(dor)

 Só quem sofre por antecipação sabe o quanto é ruim acordar às 4h38 e não conseguir dormir mais, porque sabe que o despertador vai tocar às 5h10. O som do despertador me irrita tão profundamente que eu prefiro ficar de olhos arregalados olhando para a tela do celular do que escutar novamente a música tema de Pinóquio me arrancando de um sonho como um parto de rinoceronte. Eu prefiro mil vezes encarar os segundos como um cangaceiro que observa sua presa, um olho aberto e outro fechado pra acertar a mira, desligando o despertador segundos antes dele cumprir sua função, mostrando que quem manda aqui sou eu, do que...

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dezembro 02, 2015

O dia em que conheci Martha Medeiros

Não sei você, mas eu sou uma fã incondicional de crônicas. Palavra de origem grega, derivada do deus Chronos (personificação do tempo), serve para denominar um gênero literário que narra um determinado fato, obedecendo a ordem cronológica dos acontecimentos. Nada de firula, elipse, flashback, nem tentativa de prêmio Nobel. É como um barulhinho simples e compassado, feito um tic tac de um relógio, um assobio de um pássaro, uma brisa que passa repentinamente no fim da tarde e balança sutilmente os galhos da árvore. A primeira vez que escutei a palavra “frívola” foi num desses textos xerocados que o professor lê durante o ensino médio, explicando o que seria...

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outubro 21, 2015

Cachoeira

Durante a Festa Literária Internacional de Cachoeira a cidade estava completamente lotada de pessoas. Aproximadamente 35 mil visitantes, diziam as notícias. Mais que o número total de habitantes, de acordo com o último censo. Estávamos sentadas em um restaurante da esquina, eu e uma prima, almoçando uma maniçoba, prato típico preparado com folhas de mandioca, enquanto escutávamos os primeiros acordes de uma banda de reggae que passava o som para o show que aconteceria naquela noite. “Stir It Up” instrumental: essa era a trilha sonora daquela sexta-feira escaldante. Embalada por aquele clima contagiante de manifestações culturais e artísticas, perguntei, sem imaginar que o papo iria se estender: “Já imaginou se Cachoeira fosse uma pessoa?”. Minha prima deixou...

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abril 28, 2014

Os novos pais

Eu era apenas uma criança de oito ou nove anos de idade, sentada no sofá da sala, observando meu pai colocar um CD de Raul Seixas para tocar. “Escuta a letra dessa música. Presta bem atenção e me diz o que achou”, disse ele. Era “O trem das sete” (…) Vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem (…) fumegando, apitando (…) É o trem das sete horas, é o último do sertão (…). “Tava na cara que esse tal desse trem só podia ser mesmo a morte”, pensei. Matei a charada de primeira, enchendo meu pai de orgulho, e anos mais tarde resolvi repetir o mesmo...

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