Posts escritos por: Aina Kaorner

junho 09, 2018

O lado ruim de ser terapeuta

Quando alguém pergunta “quem é você?”, temos a tendência imediata de falar nossa profissão. Eu, por exemplo, sou mulher, mãe, leonina, bem-humorada, mimada, ciumenta, mas sempre que me perguntam quem sou, logo respondo: “jornalista”.

É, definitivamente, algo que meu ego se identifica muito. Pelo menos tenho um diploma que prova isso, mas o que pouca gente sabe é que tenho uma segunda ocupação: terapeuta. Não digo profissão, pois não sou formada em psicologia. Fiz cursos de formação em terapias e especialização em psicanálise, mas não consigo incorporar o termo “terapeuta” na minha identidade com tanta facilidade. Não que eu me considere uma terapeuta ruim. Tive ótimas experiências atendendo em consultório, mas o termo me parece pesado demais.

Que me perdoem os terapeutas que são felizes e realizados, mas esse título não deu “match” comigo. É só uma questão de percepção e semiótica.

O termo terapeuta significa apenas “cuidador”, mas talvez a visão que eu mesmo tenha do terapeuta seja estereotipada demais. De tanto ouvir aquelas mil e uma recomendações que você precisa ser discreto, evitar contato íntimo com pacientes (quando digo íntimo, me refiro a uma simples carona até o primeiro ponto de ônibus da esquina), não divulgar sua vida pessoal, ser sempre o ser humano mais equilibrado, maduro e evoluído, referência de pessoa bem-sucedida, intelectual, sempre com todas as respostas para todos os problemas da humanidade. Já perdi as contas de quantas vezes esperaram que eu tivesse um manual de instruções contra todos os traumas e angústias.

Vou falar a real pra vocês: conheço centenas de terapeutas e todos também têm problemas, mas toda vez que usava esse rótulo me sentia privada do direito de ser imperfeita, imatura, de fazer merda na vida, de ter preconceitos, de não achar que tudo é normal, de não ser sempre politicamente correta, de expor minha vida nas redes sociais quando tiver vontade, de falar besteira, de ser rebelde, de escutar Anitta no carro, sem aquele julgamento: “Mas você é terapeuta…”.

Se até Freud tinha inseguranças, vaidades, traumas e fixações, quem sou eu para ser perfeita o tempo inteiro?

Se os seres humanos já são julgados naturalmente, terapeuta sofre em dobro. Quem vai confiar em se consultar com uma pessoa que usa pantufas da pantera cor-de-rosa, não sai de casa se o tapete de “bem-vindo” estiver torto em vinte graus ou toma um Rivotril sublingual todas as noites para dormir? (Não, eu não faço isso. Eu juro!0 Mas se fizesse, não gostaria que questionassem minha capacidade de ter lido os nove seminários de Lacan.

Se você é terapeuta, defende Bolsonaro nas redes sociais e mesmo assim está com o consultório cheio, ótimo. Mas a grande maioria da população mundial ainda prefere um terapeuta imparcial, discreto, sem estátuas de santos ou orixás na prateleira do consultório, sem superstições, sem partido político e que aceite escutar as piores loucuras com cara de Monalisa, mas que não cometa nenhuma delas.

Podem vir com milhares de críticas para cima de mim: “Que pensamento retrógrado e ortodoxo de terapeuta que você tem” (Corta para aquele meme do menino com os olhos virados). O fato é que a maioria dos terapeutas, coachs e afins, acaba mesmo criando um personagem carregando a emblemática plaquinha: “Quer ser feliz? Pergunte-me como”, e isso, definitivamente, não é pra mim.

Talvez por essa minha visão, digamos, preconceituosa, eu nunca me senti confortável em me assumir como “terapeuta”. Sou jornalista e pronto.

Agora se você está a fim de conversar com uma pessoa real, cheia de defeitos, que também sente medo, insegurança, que chora às vezes e que tem um bocado de dúvidas sobre a vida, aí quem sabe, a gente pode discutir um monte de coisa sobre inconsciente e autoconhecimento. Sem pedestal, sem máscaras e sem falsas promessas. Conte-me mais sobre isso.

janeiro 17, 2018

Tomar juízo

 

Toda vez que eu termino de falar com minha avó, ao telefone, ela me deseja um monte de coisas boas e finaliza com a palavra “juízo”. Minha resposta é sempre a mesma: “Juízo eu não quero, não”. Nós damos risada, ela finge que ficou assustada com a resposta, mas deixa no ar aquele clima de cumplicidade, de quem sabe que no fundo eu tenho razão.

O ritual já se repete há anos. Ela continua cumprindo seu papel de avó, me desejando uma boa dose de prudência na vida; eu continuo cumprindo meu papel de neta, garantindo meu lado cult rebelde; e nós continuamos cumprindo nosso papel em concordar que a vida tem muito a ser vivida e juízo demais aprisiona.

Não que eu queira viver de forma irresponsável, mas juízo em excesso é inimigo da plenitude. Juízo é aquele amigo invejoso e covarde, que se disfarça de protetor, mas vive te criticando, te punindo, reprimindo e, no fundo, queria estar no seu lugar.

Claro que não saio por aí descumprindo horários, ultrapassando o sinal vermelho ou furando a fila de prioridade. Quando falo em perder o juízo, me refiro em se livrar do julgamento, dos bloqueios, dos traumas, dos limites que nos foram postos pela sociedade, ou até mesmo por nossos pais, na infância.

Nenhum ser humano consegue ser livre e feliz se for comandado pelo superego que, na maioria das vezes, te faz de refém.

Ao invés de juízo, deveríamos desejar, uns aos outros, coragem, que significa agir com o coração. Juízo é petição, coragem é sinfonia.

As melhores decisões que já tomei na vida foram totalmente sem juízo. Daquelas que você pensa em desistir nos últimos minutos do segundo tempo, mas acaba fechando os olhos e indo.

Não quero incentivar pessoas a cometerem atos irresponsáveis, que façam mal a si próprio ou à outras pessoas, mas desde que você não tenha sido diagnosticado com nenhum tipo de psicose ou psicopatia, só tenho um conselho a te dar: perca o juízo.

Tome banho na chuva, viaje sem rumo, pinte o cabelo, dance até amanhecer, esqueça a dieta, se apaixone, mude de casa, cante “Evidências” no karaokê, case, separe, acampe, faça novas amizades, tatue o nome do seu cachorro, faça aula de trapézio, durma uma semana em uma tribo indígena, escute alto música brega, diga uma palavra de carinho a um desconhecido na rua, experimente sabores exóticos, aprenda a tocar um instrumento… Poderia continuar dando inúmeras sugestões, mas cada qual sabe suas necessidades e limitações.

Certa vez, conheci uma mulher que não conseguia andar descalça, porque seu pai a colocava de castigo quando a encontrava sem sapatos, durante a infância. Para ela, perder o juízo era simplesmente conseguir colocar o pé na grama.

A verdade é que, como diria Clarice Lispector: “Perder-se também é caminho”. Com uma boa dose de amor no coração, ninguém precisa de juízo. Ainda bem que minha avó concorda comigo.

 

 

janeiro 16, 2018

Petit Gateau

 

Tem uma frase de Jorge Luis Borges, no início da biografia de Freud, escrita por Elisabeth Roudinesco, que diz: “Um homem só morre efetivamente depois que o último homem que o conheceu morre também”.

Lembrei dessa frase no último domingo, quando meu filho pediu um petit gateau, como sobremesa, depois do almoço. Não que Jorge Luis Borges tenha nenhuma ligação com petit gateau, nem muito menos Freud, já que pelo menos até onde se sabe não há nenhum registro do pai da psicanálise degustando um bolinho francês ao lado de Charcot, enquanto estudava em Paris.

A frase veio à mente porque, ao provar um pedacinho da sobremesa, tive uma lembrança bem vívida da infância. Algum ingrediente daquele petit gateau, especificamente, era o mesmo que tinha nos bolos de uma senhora que fazia doces, lá numa cidadezinha do interior da Bahia, onde eu morava, no início da década de 90.

Me lembro pouco de Dona Catarina. Das raras lembranças que guardo na memória, me recordo que a porta da casa dela era de madeira e havia duas janelinhas, daquele modelo antigo que não faço a mínima ideia como se chama.

Uma das janelinhas ficava sempre aberta, por onde exalava um delicioso cheiro de algo parecido com baunilha, manteiga ou farinha láctea. Não consigo descrever exatamente, mas era um aroma que causava uma reação sinestésica, uma mistura de afeto, gentileza e muita, muita habilidade em fazer os melhores bolos da cidade.

É aí que entra a frase de Borges. Já se passaram mais de vinte anos o cheiro dos bolos de Dona Catarina ainda permanece na minha memória, mesmo sem ela estar fisicamente presente nesse planeta. Isso me fez pensar o quanto que é importante seguirmos os nossos verdadeiros dons, se quisermos viver o máximo de tempo possível, quiçá, tentarmos alcançar uma audaciosa imortalidade.

O tempo que você vive não é aquele em que você passa aproveitando as maravilhas do mundo ou degustando petits gâteaux, mas sim, o tempo que suas ideias e ações permanecem e ecoam nas gerações futuras.

Dona Catarina não precisou criar a Apple para marcar a vida de alguém. Ela não criou o bitcoin, não fundou startups, nunca fez stories no Instagram, não tinha currículo no LinkedIn, mas marcou minha infância e a de muita gente com algumas gotas de essência de baunilha e claras batidas em neve, o que só me faz crer que petit gateau talvez tenha mais a ver com Freud do que se imagina e que Jorge Luis Borges continua sendo um dos melhores escritores da atualidade.

novembro 16, 2016

Sobre livros e pessoas

Certa vez li um texto do psicanalista Contardo Calligaris que dizia algo do tipo: “Quer escolher um psicanalista ou um psicoterapeuta? Verifique se ele lê literatura.”

O autor não se referia a Augusto Cury, Daniel Goleman, James Hunter ou outros queridinhos dos terapeutas. Ele se referia à literatura-literatura, obra de ficção, romance literário.

No mesmo texto, Calligaris cita uma pesquisa publicada na revista Science que dizia que ler ficção literária melhora a teoria da mente, ou seja, um termo usado na psicologia que, em linhas gerais, significa a capacidade de compreender e elaborar a mente alheia.

Segundo a pesquisa, o hábito de ler ficção faz com que você consiga compreender melhor as experiências dos personagens, desenvolvendo maior empatia e compaixão pelas outras pessoas.

O mais impressionante é como isso na prática faz todo sentido. Não adianta ler todas as teorias de Freud, Lacan ou Jung, se você não consegue se colocar no lugar de uma mulher que foi violentada sexualmente, de um pai de família que ficou desempregado e não sabe como pagar a contas, de uma prostituta do subúrbio que precisa vender o corpo para sustentar três filhos ou de uma trapezista do circo que sonha em deixar os picadeiros para morar em São Paulo e fazer faculdade de nutrição.

A literatura te aproxima de diferentes realidades e faz você perceber que somos todos personagens de um grande livro de ficção e, de certa forma, interpretamos esses personagens na maioria das vezes por vontade própria, outras, por imposição do roteirista.

A partir do momento em que eu retomei o hábito de ler literatura de ficção – estava em uma fase onde só lia crônicas – comecei a enxergar as pessoas com mais tolerância, muito mais do que se eu tivesse lido dez livros de Skinner.

Quando eu era mais nova, imaginava que existia um mundo paralelo, onde viviam todos os personagens das histórias da literatura. Como se todos eles realmente tivessem alma e vivessem em uma realidade explicada pela física quântica, onde você poderia encontrar Macabéa tomando um chá das cinco com Capitu, ou Hércules jogando uma partida de poker com Hamlet.

Da mesma forma, nós, que julgamos viver o mundo “real”, estamos aqui vendo Donald Trump ser eleito à presidência dos Estados Unidos, Bob Dylan ganhar o Nobel de literatura e Kim Kardashian fazer seis mil selfies durante viagem ao México, exatamente como personagens, protagonistas e coadjuvantes.

O fato é que o mundo (real e fictício) vive de histórias: é disso que somos feitos. Se não temos o hábito de consumir histórias na posição de leitores, seremos incapazes de nos reconhecer em nosso próprio enredo.

A literatura nos ensina muito mais do que compreender a complexidade de cada indivíduo. Ela nos leva a perceber que cinco minutos em uma fila pode durar um livro inteiro e cinquenta anos de um casamento podem constar em apenas um parágrafo.

O que importa mesmo é saber que sem virar a página não existe história e que finais virão inevitavelmente. E por mais estranhos ou imprevisíveis que pareçam, eles não são a melhor parte da obra. Serão sempre bonitos quando toda a história valer a pena.

outubro 31, 2016

Gente é pra brilhar

Adoro aquela frase de Caetano Veloso que diz que “gente é pra brilhar”, pois é isso mesmo que eu acredito. O corpo humano, formado basicamente por oxigênio, hidrogênio, nitrogênio e carbono, contém o mesmo material pelo qual são formadas as estrelas.

As estrelas brilham porque os gases encontrados em seu interior entram em fusão nuclear, liberando energia. Da mesma forma, o ser humano “brilha” quando ocorre um processo de “combustão” dentro dele, quando ele se sente completo, pleno e feliz.

Nenhum ser humano nasceu pra sofrer. Observem as crianças: elas são cheias de vida, sabem bem o que querem e têm uma energia incrível.

Se tem uma coisa que me deixa arrepiada é quando vejo uma pessoa exercendo seu total estado de plenitude. Às vezes vou num espetáculo e fico tão encantada que, enquanto tá todo mundo lá curtindo o momento, eu fico com vontade de chorar de tanta emoção, rezando pra ninguém perceber que meus olhos estão cheios de lágrimas. Um ser humano que brilha é lindo de se ver e isso me deixa realmente muito emocionada.

O problema é que tem gente que é especialista em apagar o brilho alheio. Normalmente isso acontece com pessoas que não sabem bem como desenvolver sua própria luz, ou aqueles que acham que só eles têm o direito de brilhar.

Sabe quando você conta que tem o sonho de cantar com Roberto Carlos no especial de Natal e a pessoa vem com aquela história de que isso é para poucos e é melhor você dar um Google no PCI Concursos e procurar um rumo pra sua vida? Você nunca ouviria isso de alguém que teve a honra de dividir o palco com o rei, ou de pessoas que definitivamente conhecem o significado da frase “realizar sonhos”. Observe a vida dessa pessoa que te botou pra baixo e veja que na maioria das vezes ela carrega uma série de frustrações.

Claro que não podemos viver eternamente num mundo de ilusão e fantasias, pé no chão é fundamental, mas se o que faz sua alma vibrar é cantar, faça de tudo para chegar ao seu destino, mesmo que você precise vender Jequiti ou ser executiva de uma multinacional para pagar as contas enquanto não realiza o seu sonho.

Mesmo que você nunca cante no especial da Globo, tenha certeza que onde quer que você exerça o seu talento, ainda que tocando violão na festa de Natal da família, alguém vai encher os olhos de lágrimas ao captar sua emoção ao fazer o que realmente gosta.

Não exercer nosso estado natural de “estrela” é extremamente prejudicial à saúde. Vai de encontro ao principal propósito da vida, que é a plenitude. Mas não pense que para ser estrela você precisa estar nos palcos. Tem gente que é estrela construindo prédios, desenhando plantas, resolvendo equações, salvando vidas em cirurgias de alto risco, ou até mesmo vendendo botijão de gás (você precisa conhecer o cara que vende gás aqui na minha rua!).

Se você acha que sucesso é estar dentro de uma peça de alfaiataria, em uma Land Rover, voltando pra casa no engarrafamento das 19h, eu sinto muito em informar, mas tem muita gente que vive essa rotina à base de clonazepam e fluoxetina.

Tem gente exercendo seu brilho próprio nas sinaleiras, na cozinha de casa, em uma Kombi no Vale do Capão, tocando acordeom em um ônibus lotado, cortando unha de gato em pet shop (sei lá…). Cada qual tem sua maneira única de cintilar, de entrar em combustão, de vivenciar sua fusão nuclear. E quando isso acontece dá pra ver de longe, há anos-luz de distância. Pra quem duvida, dá só uma olhadinha no céu que você vai ver.

1 2 3
Ir ao topo