janeiro 17, 2018

Tomar juízo

 

Toda vez que eu termino de falar com minha avó, ao telefone, ela me deseja um monte de coisas boas e finaliza com a palavra “juízo”. Minha resposta é sempre a mesma: “Juízo eu não quero, não”. Nós damos risada, ela finge que ficou assustada com a resposta, mas deixa no ar aquele clima de cumplicidade, de quem sabe que no fundo eu tenho razão.

O ritual já se repete há anos. Ela continua cumprindo seu papel de avó, me desejando uma boa dose de prudência na vida; eu continuo cumprindo meu papel de neta, garantindo meu lado cult rebelde; e nós continuamos cumprindo nosso papel em concordar que a vida tem muito a ser vivida e juízo demais aprisiona.

Não que eu queira viver de forma irresponsável, mas juízo em excesso é inimigo da plenitude. Juízo é aquele amigo invejoso e covarde, que se disfarça de protetor, mas vive te criticando, te punindo, reprimindo e, no fundo, queria estar no seu lugar.

Claro que não saio por aí descumprindo horários, ultrapassando o sinal vermelho ou furando a fila de prioridade. Quando falo em perder o juízo, me refiro em se livrar do julgamento, dos bloqueios, dos traumas, dos limites que nos foram postos pela sociedade, ou até mesmo por nossos pais, na infância.

Nenhum ser humano consegue ser livre e feliz se for comandado pelo superego que, na maioria das vezes, te faz de refém.

Ao invés de juízo, deveríamos desejar, uns aos outros, coragem, que significa agir com o coração. Juízo é petição, coragem é sinfonia.

As melhores decisões que já tomei na vida foram totalmente sem juízo. Daquelas que você pensa em desistir nos últimos minutos do segundo tempo, mas acaba fechando os olhos e indo.

Não quero incentivar pessoas a cometerem atos irresponsáveis, que façam mal a si próprio ou à outras pessoas, mas desde que você não tenha sido diagnosticado com nenhum tipo de psicose ou psicopatia, só tenho um conselho a te dar: perca o juízo.

Tome banho na chuva, viaje sem rumo, pinte o cabelo, dance até amanhecer, esqueça a dieta, se apaixone, mude de casa, cante “Evidências” no karaokê, case, separe, acampe, faça novas amizades, tatue o nome do seu cachorro, faça aula de trapézio, durma uma semana em uma tribo indígena, escute alto música brega, diga uma palavra de carinho a um desconhecido na rua, experimente sabores exóticos, aprenda a tocar um instrumento… Poderia continuar dando inúmeras sugestões, mas cada qual sabe suas necessidades e limitações.

Certa vez, conheci uma mulher que não conseguia andar descalça, porque seu pai a colocava de castigo quando a encontrava sem sapatos, durante a infância. Para ela, perder o juízo era simplesmente conseguir colocar o pé na grama.

A verdade é que, como diria Clarice Lispector: “Perder-se também é caminho”. Com uma boa dose de amor no coração, ninguém precisa de juízo. Ainda bem que minha avó concorda comigo.

 

 

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