Sobre livros e pessoas


Certa vez li um texto do psicanalista Contardo Calligaris que dizia algo do tipo: “Quer escolher um psicanalista ou um psicoterapeuta? Verifique se ele lê literatura.” O autor não se referia a Augusto Cury, Daniel Goleman, James Hunter ou outros queridinhos dos terapeutas. Ele se referia à literatura-literatura, obra de ficção, romance literário.
No mesmo texto, Calligaris cita uma pesquisa publicada na revista Science que dizia que ler ficção literária melhora a teoria da mente, ou seja, um termo usado na psicologia que, em linhas gerais, significa a capacidade de compreender e elaborar a mente alheia.
Segundo a pesquisa, o hábito de ler ficção faz com que você consiga compreender melhor as experiências dos personagens, desenvolvendo maior empatia e compaixão pelas outras pessoas.
O mais impressionante é como isso na prática faz todo sentido. Não adianta ler todas as teorias de Freud, Lacan ou Jung, se você não consegue se colocar no lugar de uma mulher que foi violentada sexualmente, de um pai de família que ficou desempregado e não sabe como pagar a contas, de uma prostituta do subúrbio que precisa vender o corpo para sustentar três filhos ou de uma trapezista do circo que sonha em deixar os picadeiros para morar em São Paulo e fazer faculdade de nutrição.
A literatura te aproxima de diferentes realidades e faz você perceber que somos todos personagens de um grande livro de ficção e, de certa forma, interpretamos esses personagens na maioria das vezes por vontade própria, outras, por imposição do roteirista.
A partir do momento em que eu retomei o hábito de ler literatura de ficção – estava em uma fase onde só lia crônicas - comecei a enxergar as pessoas com mais tolerância, muito mais do que se eu tivesse lido dez livros de Skinner.
Quando eu era mais nova, imaginava que existia um mundo paralelo, onde viviam todos os personagens das histórias da literatura. Como se todos eles realmente tivessem alma e vivessem em uma realidade explicada pela física quântica, onde você poderia encontrar Macabéa tomando um chá das cinco com Capitu, ou Hércules jogando uma partida de poker com Hamlet.
Da mesma forma, nós, que julgamos viver o mundo “real”, estamos aqui vendo Donald Trump ser eleito à presidência dos Estados Unidos, Bob Dylan ganhar o Nobel de literatura e Kim Kardashian fazer seis mil selfies durante viagem ao México, exatamente como personagens, protagonistas e coadjuvantes.
O fato é que o mundo (real e fictício) vive de histórias: é disso que somos feitos. Se não temos o hábito de consumir histórias na posição de leitores, seremos incapazes de nos reconhecer em nosso próprio enredo.
A literatura nos ensina muito mais do que compreender a complexidade de cada indivíduo. Ela nos leva a perceber que cinco minutos em uma fila pode durar um livro inteiro e cinquenta anos de um casamento podem constar em apenas um parágrafo. O que importa mesmo é saber que sem virar a página não existe história e que finais virão inevitavelmente. E por mais estranhos ou imprevisíveis que pareçam, eles não são a melhor parte da obra. Serão sempre bonitos quando toda a história valer a pena.

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