Como assim, digital influencer?



Estava assistindo a um desses programas de beleza na TV e eis que aparece uma menina dando um depoimento, cuja legenda dizia “digital influencer”.
Não lembro bem o nome dela, nem qual a dica que ela deu, já que meus neurônios ficaram um bom tempo em estado de inércia, atualizando o software. Claro que não foi a primeira vez que eu escutei o termo “digital influencer”, já tinha visto diversas outras vezes, mas ele vinha sempre como uma espécie de “subtítulo”. Fulana de tal, modelo e digital influencer; musa fitness e digital influencer; Youtuber, blogueira, palestrante, maquiadora, seja lá o que for e digital influencer... Agora “digital influencer”, puramente, como profissão exclusiva, com diploma e carteira assinada, foi a primeira vez.
Fiquei um tempão pensando nessa mudança de paradigmas e sobre a quantidade enorme de pessoas e profissões que se dizem influenciadores, gurus, treinadores, incentivadores, todos com a receita pronta para o sucesso e o mapa do caminho para ser feliz.
De uns tempos pra cá, surgiu uma imensa gama de coachs de vida, de carreira, de emagrecimento, de relacionamento, de saúde, financeiro, dentre tantos outros. É tanta gente ensinando gente o que fazer da vida, que dava até pra criar um livro tipo “Admirável Mundo Novo”, baseado no roteiro onde pessoas que não sabem o que quer da vida e ensinam pessoas o que fazer com as suas.
Claro que não estou criticando os grandes líderes, filósofos, pensadores e empreendedores (imagina a quantidade de seguidores que Jesus Cristo teria no Youtube!!). Me refiro às pessoas que ainda não criaram nada verdadeiramente consistente e se acham no direito de se autodenominar “influenciadores” só porque ganhou uma letra “k” ao lado do número de seguidores no  Instagram.
Os influenciadores sempre existiram e sempre existirão em toda história da humanidade. Desde aquele garoto - o mais popular da escola - que começou a usar saia e todos passaram a seguir, até a personagem da novela das nove que consegue fazer com que se esgotem todos os xampus de tamarindo das farmácias. Mas o fato é que tem muito Inri Cristo se achando Augusto Cury, muito tamagotchi se achando iPhone 7. E o pior: tentando encontrar nisso um sentido pra sua vida.
Lembre-se: ninguém nasceu para ser influenciador. Você nasceu para um propósito maior e se você for bom naquilo que se propõe, naturalmente as pessoas vão se inspirar em você.
Sem querer ser aquela tia chata, que não se adapta às evoluções da tecnologia, vou te dar um conselho: quando te perguntarem o que você quer ser quando crescer, escolha uma profissão, meu filho, daquela à moda antiga. Você pode até ser padeiro e se tornar um Olivier Anquier, mas esqueça esse negócio de dizer que quer ser influenciador se nem seu gato tá aceitando comer a ração que você escolhe.
Ou você acha mesmo que deve se autodenominar influenciador só porque resolveu ensinar as pessoas como fazer uma máscara de abacate pra hidratar o cabelo ou mostrar no Instagram sua nova paleta Naked da Urban Decay?
Influenciador de verdade era Osama Bin Laden, que mesmo escondido em uma caverna sem wi-fi, fazia as pessoas se matarem em nome de Alah. E você aí se achando o cruzamento do pastor Malafaia com a princesa Diana só porque deixa as pessoas com água na boca postando foto da sua sobremesa no Paris 6.
O verdadeiro influenciador defende uma causa, incentiva pela paixão e pelo talento. Ou você acha que Olympe de Gouges faria publieditorial pra Valisere ou gravaria snapchat no consultório do Dr. Rey com o slogan “mais resistência na sua prótese e na nossa luta”?
Como diria Renato Russo, é muita gente que “fala demais por não ter nada a dizer”. Enquanto isso, tô pensando em mudar de profissão para "digital observer”, só pra ver onde essa história vai chegar.

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