Desperta(dor)



Só quem sofre por antecipação sabe o quanto é ruim acordar às 4h38 e não conseguir dormir mais, porque sabe que o despertador vai tocar às 5h10.
O som do despertador me irrita tão profundamente que eu prefiro ficar de olhos arregalados olhando para a tela do celular do que escutar novamente a música tema de Pinóquio me arrancando de um sonho como um parto de rinoceronte.
Eu prefiro mil vezes encarar os segundos como um cangaceiro que observa sua presa, um olho aberto e outro fechado pra acertar a mira, desligando o despertador segundos antes dele cumprir sua função, mostrando que quem manda aqui sou eu, do que ser surpreendida por aquele susto que me corrói as vísceras, desperta crise de labirintite e incita um misto de depressão com crise de pânico.
Escuto uma porta se abrindo. Minha mãe percebe que estou acordada, vem perguntar o que aconteceu e ao descobrir que está tudo bem, dispara “sabe o que é isso? Crise de ansiedade”, e volta a dormir. Mãe sempre gosta de dar um pitaco e sair de cena e isso se perpetua pelo resto da vida, também chamado de superego.
A verdade é que nunca gostei que a dor me pegasse de surpresa. Desde criança quando sabia que tinha que ir ao dentista ficava meia hora antes pisando numa pedra de gelo para deixar meu corpo imune à dor. Mais ou menos quando você sabe que vai ser executado a tiros num campo da Indonésia, fecha os olhos e diz “vai, eu aguento”.
Soneca é para os fracos. Se a merda vai acontecer eu prefiro enfrentá-la logo e ainda provocá-la como criança birrenta, “nem doeu”, mostrando a língua. Eu encaro o despertador de frente nem que passe o resto do dia me sentindo o cobertor do Linus, aquele personagem do Snoopy que arrasta um paninho azul.
Podem me chamar de louca, mas eu prefiro mil vezes estar preparada para qualquer notícia ruim, imaginando o que eu faria da vida nos próximos vinte anos se eu fosse Stephen Hawking sem a inteligência de Stephen Hawking, ao som de Love By Grace, a receber de surpresa aquele golpe na jugular que dão na hora de matar um porco.
Esse negócio de “O que você faria se só te restasse esse dia” não funciona comigo. Eu passaria as últimas 24 horas me sentindo o pó da ampulheta.
Talvez por isso eu tenha tanto medo de cartomante. Se ela me fala que vou morrer daqui a vinte dias eu vou passar dezenove escutando “Canto Para a Minha Morte”, de Raul Seixas, no replay.
Não tenho maturidade emocional para aproveitar os últimos dois dedos, o último pedaço, a reserva da gasolina. Se um frasco de perfume que eu gosto muito está prestes a acabar eu deixo de usar faltando algumas gotinhas e me mantenho cheia de potes inacabados, com a validade quase vencida. “Só vai acabar quando eu quiser”. 1, 2, 3 e já. Nada de surpresas.
Não tem frase de Osho nem Sri Sri Ravi que me faça viver o presente se alguém me disser: “você só tem vinte minutos para mergulhar no mar do Caribe e depois disso um tsunami vai destruir todo hemisfério norte do planeta”.
Nunca vai entrar na minha cabeça essa ideia de que você tem um tempo limitado pra dormir e que, faça chuva ou faça sol, com chikungunya ou crise de enxaqueca, às 5h10 você vai ter que levantar. Eu nunca consigo descansar completamente com prazo limitado para o estágio REM.
Eu admiro aquelas crianças que os pais dizem “só mais cinco minutos” e elas partem a correr com as bochechas rosadas e cabelos molhados de suor. Não sei lidar com nada que está prestes a acabar. Se eu soubesse que um dia morreria de infarto passaria o resto dos meus dias contando os batimentos cardíacos em ordem decrescente.
É melhor fingir que nada tem fim, que o despertador não vai tocar, que o perfume não vai acabar, que não vai ter tsunami, bomba de Hiroshima, tiroteio na BR. Não me contem nada disso. É melhor não saber. Me deixem viver na ilusão de que a dor não virá, senão eu vou dedicar toda minha vida a esperar por ela, como uma mãe de primeira viagem que passa os noves meses esperando a bolsa estourar.
Despertador é como a chegada da quarta-feira de cinzas antes da terça de carnaval. Se não for pra jogar confetes nem me chame que eu não vou.

Comentários

rita basttos disse…
Lindo texto Aina!Vejo que em breve estarei na fila de autógrafos!
Eu já sou aquela que gostar de sabe! vivo no fio como uma trapezista, entre a realidade e o sonho, sendo que o sonho acalenta meus dias de inverno, fazendo-me uma Alice dos tempos moderno!Rsrs