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dezembro 02, 2015

O dia em que conheci Martha Medeiros

Não sei você, mas eu sou uma fã incondicional de crônicas. Palavra de origem grega, derivada do deus Chronos (personificação do tempo), serve para denominar um gênero literário que narra um determinado fato, obedecendo a ordem cronológica dos acontecimentos. Nada de firula, elipse, flashback, nem tentativa de prêmio Nobel. É como um barulhinho simples e compassado, feito um tic tac de um relógio, um assobio de um pássaro, uma brisa que passa repentinamente no fim da tarde e balança sutilmente os galhos da árvore.

A primeira vez que escutei a palavra “frívola” foi num desses textos xerocados que o professor lê durante o ensino médio, explicando o que seria a crônica como gênero literário. Confesso que fiquei meio ofendida quando descobri que meu estilo preferido era considerado uma espécie de subliteratura.

O próprio Carlos Drummond de Andrade descreve em um trecho da crônica “O Frívolo Cronista”: “Pode ser um pé de chinelo, uma pétala de flor, duas conchinhas da praia, o salto de um gafanhoto, uma caricatura, o rebolado da corista, o assobio do rapaz da lavanderia.” Qualquer coisa pode virar crônica, por mais inútil que pareça. Essa característica faz desse tipo de texto algo tão simples que parece que você está batendo um papo despretensioso com o autor, na varanda de casa, tomando um cabernet sauvignon, daqueles mais baratinhos do supermercado.

Essa linguagem acessível, narrando fatos aparentemente óbvios do cotidiano, fez a crônica ganhar fama de gênero menor, muitas vezes até confundido com autoajuda. Mas é justamente aí que mora a graça da coisa. É exatamente essa linguagem coloquial que ajuda a criar intimidade com o leitor e faz a crônica ser tão próxima de nossa vida que parece aquele segredo contado exclusivamente pra você.

A crônica preenche nossa carência quando precisamos conviver com pessoas desinteressantes e densas, ela te diz até mesmo aquilo que você pensa e não consegue falar, ela organiza ideias, ela fala tudo que você queria ouvir do seu melhor amigo, do seu psicanalista ou da pessoa que está ao seu lado na fila do banco. Ela coloca poesia na rotina, sem usar métrica, rima e ritmo rebuscado.

Grandes escritores já navegaram pelos mares das crônicas, desde Machado de Assis a Clarice Lispector, Rubem Alves, João Ubaldo Ribeiro, Fernando Sabino, Luis Fernando Veríssimo, dentre tantos outros.

Se você é um fã assíduo de crônica, assim como eu, certamente já leu algum texto de Martha Medeiros. Quando eu soube que ela estaria na Festa Literária de Cachoeira (Flica) 2015, meu coração bateu igual aos dos fãs do Justin Bieber, armando barraca na porta da Arena Anhembi.

Ela não faz ideia do planejamento que eu fiz para conseguir participar da mesa redonda em que ela estaria presente. Desmarquei consultas, cancelei trabalhos, contratei um motorista com um mês de antecedência, não me abati nem pela dose alta de antibiótico que comecei a tomar por conta de uma infecção de garganta que começou na noite anterior.

Enquanto aguardava no final da fila de autógrafos pensei em mil coisas que poderia finalmente ter a oportunidade de dizer, mas a cada pessoa que chegava até a mesa da autora imaginava que aquela pessoa já diria tudo que eu queria falar.

Aquela ali disse que é muito fã. Essa falou que Martha descreve perfeitamente tudo que ela sente. Essa disse que sente como se ela fosse sua melhor amiga. Ficava calculando, como uma criança que conta carneirinhos antes de dormir.

Finalmente chegou a minha vez. Eu praticamente não disse nada. Mal consegui balbuciar apenas que vim de Salvador. Até o e-mail dela eu pedi pra minha amiga pedir, pois não tive coragem sequer de ter essa audácia. Será que era muita invasão de privacidade?

Logo eu, que achava que Martha Medeiros era uma espécie de melhor amiga virtual. Era tão íntima que já sabia qual a música que ela gostava, o livro preferido, a marca do carro que ela dirigia, até podia escutar o canto dos passarinhos que a acordavam às 4h da manhã.

Logo eu, que já comprei quase todos os livros, que já assisti todas as entrevistas no YouTube, que reconhecia cada texto postado no Facebook sem os devidos créditos, que já fucei todos os htmls da internet para encontrar um contato dela, que achava incrível a forma como ela terminava os textos, tipo aquele nó que dá um acabamento perfeito na bainha.

Não disse absolutamente nada. Não queria repetir tudo que ela já tinha escutado naquela noite, afinal, o que eu tinha pra dizer era tão frívolo, tão coloquial, tão despretensioso. Assim foi o meu encontro: completamente silencioso, diante de tantos pensamentos. Tímido como uma crônica, que parece desinteressante e superficial, mas que esconde nas estrelinhas as nuances da alma humana.

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