Cachoeira



Durante a Festa Literária Internacional de Cachoeira a cidade estava completamente lotada de pessoas. Aproximadamente 35 mil visitantes, diziam as notícias. Mais que o número total de habitantes, de acordo com o último censo.
Estávamos sentadas em um restaurante da esquina, eu e uma prima, almoçando uma maniçoba, prato típico preparado com folhas de mandioca, enquanto escutávamos os primeiros acordes de uma banda de reggae que passava o som para o show que aconteceria naquela noite. “Stir It Up” instrumental: essa era a trilha sonora daquela sexta-feira escaldante.
Embalada por aquele clima contagiante de manifestações culturais e artísticas, perguntei, sem imaginar que o papo iria se estender: “Já imaginou se Cachoeira fosse uma pessoa?”. Minha prima deixou fluir a imaginação: “Ela teria uma cabelo black power, esvoaçante, e seria super gente boa”, sorriu.
Continuamos a traçar o perfil físico e psicológico daquela que seria a criatura mais legal de se conviver na face da Terra. Cachoeira andaria de sandália rasteira e vestidos longos. Não teria diploma de nível superior, mas saberia falar sobre qualquer assunto, dos seminários de Lacan às últimas crônicas de Gregório Duvivier.
Cachoeira escutaria reggae, jazz, blues, mas também não torceria o nariz pro pagode e o arrocha, pois sabe que no fundo tudo é manifestação cultural. Ela seria fã de cinema, teria a coleção completa de Woody Allen, beberia vinho, cerveja artesanal e usaria no pescoço um patuá de oxum.
Sua casa teria decoração vintage, repleta de obras de artistas contemporâneos do Recôncavo, onde receberia os amigos com bolo caseiro de tapioca, no final da tarde.
Cachoeira viajaria o mundo de mochila nas costas só para conhecer novas culturas, novas pessoas e respirar novos ares. Falaria francês, espanhol, alemão e estaria arriscando umas aulas de mandarim.
Cachoeira não teria preconceitos, nem sairia gritando com cartazes em manifestações. Com uma voz firme e sorriso simpático, conquistaria o que queria apenas pelo poder de persuasão.
Passar uma tarde ao seu lado nunca seria entediante, pois tudo que ela mais teria era história pra contar, acompanhada de uma boa xícara de café, de coador, é claro. Todo mundo se sentiria bem ao lado dela, pediria conselhos, ofereceria carona, postaria selfie no Facebook.
Ela teria uma voz linda como de Concha Buika, suave e marcante. Na porta de casa, um azulejo escrito “Se for de paz, pode entrar”. Na biblioteca, de Dostoiévski à Haruki Murakami. Na playlist, de Carla Bruni à Sine Calmon.
Mas nem pense que ela seria chata ou metida à intelectual. Ela não escreveria textos imensos falando mal do Governo Dilma, ainda que não votasse no PT, não se daria o trabalho de pichar muros em protestos, não seria contra o casamento gay, nem contra os evangélicos, nem contra nada. Cachoeira não teria necessidade de chamar atenção, ainda assim atrairia todos os olhares com a elegante discrição de quem sabe o poder de poucas e boas palavras, ditas de maneira suave, como a brisa que corre no rio Paraguaçu.
Ela seria tão psicoanalisada, tão autoconfiante, que precisaria de pouco pra aparecer. No máximo uma tatuagem no pulso esquerdo, escrito “Let It Be”, em letras itálicas.
Pra quem não sabe, Cachoeira é uma cidade histórica do Recôncavo Baiano, mas para mim sempre será a moça de cabelos esvoaçantes que a natureza, em sua infinita bondade, a fez cidade, para que milhares de pessoas tivessem o prazer de desfrutar de sua companhia.

Comentários

rita basttos disse…
Cachoeira conjuga bem esses verbos: sentir, sonhar, acolher, receber, saber, partilhar...., sem falar dos filhos e filhas que do bom adubo vive a brotar! Belo texto Aina Kaorner!