Os novos pais


Eu era apenas uma criança de oito ou nove anos de idade, sentada no sofá da sala, observando meu pai colocar um CD de Raul Seixas para tocar. “Escuta a letra dessa música. Presta bem atenção e me diz o que achou”, disse ele.
Era “O trem das sete” (...) Vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem (...) fumegando, apitando (...) É o trem das sete horas, é o último do sertão (...)
“Tava na cara que esse tal desse trem só podia ser mesmo a morte”, pensei. Matei a charada de primeira, enchendo meu pai de orgulho, e anos mais tarde resolvi repetir o mesmo teste com meu filho.
Nem deu tempo de Raul aquecer as cordas vocais e meu filho logo disse: “Tira essa música horrível. Não quero ouvir mais não”, reclamou, sem a mínima motivação para interpretar do que se tratava aquele trem que não precisava de passagem nem bagagem.
Pode parecer chato demais exigir isso de uma criança, mas nesse momento me dei conta que talvez eu tenha vivido a última geração dos filhos que cresceram escutando as canções que tocavam na vitrola dos pais, com influências de Elvis Presley a Paulo Diniz.
Transitávamos de forma natural e tranquila entre os contos de Malba Tahan e gibis da Turma da Mônica, sabendo bem onde começava e terminava o nosso espaço. Assistíamos ao Show da Xuxa, mas sabíamos que tínhamos que fazer silêncio na hora de Brega & Chique. Tínhamos nossa cota de filmes infantis na locadora, mas acabávamos vendo Silêncio dos Inocentes, caso não tivesse nada melhor pra fazer em uma tarde chuvosa. Tudo isso sem pressão, sem censura e sem traumas.
Qual foi a criança dos anos 80 que nunca nunca sentiu medo quando Zé Ramalho começava a cantar “Mistérios da Meia-Noite” para anunciar a chegada do lobisomem na reprise de Roque Santeiro? Quem nunca passou uma tarde de domingo ouvindo Silvio Santos mandar abrir as portas da esperança? Quem nunca imitou a voz de Gil Gomes (do Aqui Agora) com os coleguinhas da escola? Qual foi o menino que não morria de curiosidade para assistir um trechinho da extinta Sexta Sexy da Band, escondido dos pais?
Não só assistíamos novelas, como sabíamos os nomes dos atores. Ou vá dizer que você não sabia que era Ney Latorraca que interpretava Vlad na novela Vamp?
As crianças de antigamente eram obrigadas a criar suas próprias estratégias para se adaptar ao universo dos pais e transitavam entre o mundo lúdico da infância e a rotina da vida os adultos, de forma natural e divertida.
Hoje, vivemos num mundo em que os pais modificam seus hábitos exclusivamente em prol dos filhos. Vivemos na ditadura do politicamente correto, das crianças engessadas e educadas pelo Discovery Kids, dos pais obrigados a decorar todas as letras das músicas da Galinha Pintadinha e que acreditam que sair de casa sem um tablet é tarefa mais difícil que os desafios do He-Man.
Toda programação da família é feita em prol da tentativa de ocupar a mente dos pequenos. As crianças não têm direito nem mais de sentir tédio e só vão para restaurante se tiver cardápio kids e Wi-Fi.
Os pais participam das reuniões escolares de maneira ansiosa, questionam o método pedagógico e indagam até qual a melhor forma de corrigir uma palavra que o filho escreveu errado na lição da escola. Quem não teve tempo de assistir Rio 2 tem motivo suficiente pra se sentir a pior das criaturas da face da Terra. Não saber o que são Minions ou nunca ter visto uma arena de beyblade é assinar um atestado de incompetência.
Antigamente crianças brincavam com crianças em um universo particular, criavam suas próprias regras e aventuras. Os adultos só apareciam para avisar que era hora de comer e tomar banho, como meros coadjuvantes, a exemplo das pernas da babá dos Muppet Babies.
Os pais de hoje sentem a necessidade de entrar em cena, rolar no tapete, se jogar na grama do parque. São pais fabricados, que escondem seus medos por detrás da coletânea de filmes dos Backyardigans.
Claro que não há nada de errado em proporcionar lazer aos filhos, brincar com a criança no chão, jogar videogame ou trocar o Jornal Nacional pelo Cartoon Network. O problema é quando a criança deixa de ter uma referência saudável de quem são seus pais, do que eles gostam, o que eles pensam, escutam ou leem, para viverem como filhos de robôs que leem Jean Piaget pra ajudar em um simples dever de casa.
Imagino esses filhos como ratinhos de laboratório, vítimas de um experimento científico de pais que jogam todas as suas frustrações pessoais na tentativa de se realizarem como "super pais". Apesar da justificativa de proteção aos filhos do mundo caótico em que vivemos, esse novo modelo de educação e demonstração de afeto desmascara uma sensação de culpa e o medo de fracassarem como pais.
A nova geração de pais inseguros cria seus filhos como se estivessem num reality show da Supernanny e esquecem que a melhor forma de educar é sendo autêntico.
Esse manual de instrução de “como ser pai no século XXI” retira das crianças o direto de ter a maior preciosidade da vida de um ser humano que é a referência e admiração pela imagem genuína do pai e da mãe.
Somos todos frutos das sinestesias da infância, do cheiro de café que o avô tomava no final da tarde, da Ave Maria que tocava no rádio de pilha da avó, da missa dos domingos que éramos obrigados a ir. São essas vivências e observações da essência individual de cada membro da família que cria um ser humano pensante, crítico e autêntico.
Quem não se conhece, não pode ajudar o outro a se conhecer. Quem não tem personalidade própria não pode ajudar o outro a conquistar sua autonomia. Vamos deixar de lado as receitas de bolo, modelos de criação americanizadas e regras de autoajuda, lembrando que o amor por si só é autoeducativo.

Comentários

Lindo texto, suas interpretações, me fez refletir um pouco em tudo que ja vivi, ou ainda tenho pra viver..!
*-*