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Abril 28, 2014

Os novos pais

Eu era apenas uma criança de oito ou nove anos de idade, sentada no sofá da sala, observando meu pai colocar um CD de Raul Seixas para tocar. “Escuta a letra dessa música. Presta bem atenção e me diz o que achou”, disse ele.

Era “O trem das sete” (…) Vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem (…) fumegando, apitando (…) É o trem das sete horas, é o último do sertão (…).

“Tava na cara que esse tal desse trem só podia ser mesmo a morte”, pensei. Matei a charada de primeira, enchendo meu pai de orgulho, e anos mais tarde resolvi repetir o mesmo teste com meu filho.

Nem deu tempo de Raul aquecer as cordas vocais e meu filho logo disse: “Tira essa música horrível. Não quero ouvir mais não”, reclamou, sem a mínima motivação para interpretar do que se tratava aquele trem que não precisava de passagem nem bagagem.

Pode parecer chato demais exigir isso de uma criança, mas nesse momento me dei conta que talvez eu tenha vivido a última geração dos filhos que cresceram escutando as canções que tocavam na vitrola dos pais, com influências de Elvis Presley a Paulo Diniz.

Transitávamos de forma natural e tranquila entre os contos de Malba Tahan e gibis da Turma da Mônica, sabendo bem onde começava e terminava o nosso espaço. Assistíamos ao Show da Xuxa, mas sabíamos que tínhamos que fazer silêncio na hora de Brega & Chique. Tínhamos nossa cota de filmes infantis na locadora, mas acabávamos vendo Silêncio dos Inocentes, caso não tivesse nada melhor pra fazer em uma tarde chuvosa. Tudo isso sem pressão, sem censura e sem traumas.

Qual foi a criança dos anos 80 que nunca nunca sentiu medo quando Zé Ramalho começava a cantar “Mistérios da Meia-Noite” para anunciar a chegada do lobisomem na reprise de Roque Santeiro? Quem nunca passou uma tarde de domingo ouvindo Silvio Santos mandar abrir as portas da esperança? Quem nunca imitou a voz de Gil Gomes (do Aqui Agora) com os coleguinhas da escola? Qual foi o menino que não morria de curiosidade para assistir um trechinho da extinta Sexta Sexy da Band, escondido dos pais?

Não só assistíamos novelas, como sabíamos os nomes dos atores. Ou vá dizer que você não sabia que era Ney Latorraca que interpretava Vlad na novela Vamp?

As crianças de antigamente eram obrigadas a criar suas próprias estratégias para se adaptar ao universo dos pais e transitavam entre o mundo lúdico da infância e a rotina da vida os adultos, de forma natural e divertida.

Hoje, vivemos num mundo em que os pais modificam seus hábitos exclusivamente em prol dos filhos. Vivemos na ditadura do politicamente correto, das crianças engessadas e educadas pelo Discovery Kids, dos pais obrigados a decorar todas as letras das músicas da Galinha Pintadinha e que acreditam que sair de casa sem um tablet é tarefa mais difícil que os desafios do He-Man.

Toda programação da família é feita em prol da tentativa de ocupar a mente dos pequenos. As crianças não têm direito nem mais de sentir tédio e só vão para restaurante se tiver cardápio kids e Wi-Fi.

Os pais participam das reuniões escolares de maneira ansiosa, questionam o método pedagógico e indagam até qual a melhor forma de corrigir uma palavra que o filho escreveu errado na lição da escola. Quem não teve tempo de assistir Rio 2 tem motivo suficiente pra se sentir a pior das criaturas da face da Terra. Não saber o que são Minions ou nunca ter visto uma arena de beyblade é assinar um atestado de incompetência.

Antigamente crianças brincavam com crianças em um universo particular, criavam suas próprias regras e aventuras. Os adultos só apareciam para avisar que era hora de comer e tomar banho, como meros coadjuvantes, a exemplo das pernas da babá dos Muppet Babies.

Os pais de hoje sentem a necessidade de entrar em cena, rolar no tapete, se jogar na grama do parque. São pais fabricados, que escondem seus medos por detrás da coletânea de filmes dos Backyardigans.

Claro que não há nada de errado em proporcionar lazer aos filhos, brincar com a criança no chão, jogar videogame ou trocar o Jornal Nacional pelo Cartoon Network. O problema é quando a criança deixa de ter uma referência saudável de quem são seus pais, do que eles gostam, o que eles pensam, escutam ou leem, para viverem como filhos de robôs que leem Jean Piaget pra ajudar em um simples dever de casa.

Imagino esses filhos como ratinhos de laboratório, vítimas de um experimento científico de pais que jogam todas as suas frustrações pessoais na tentativa de se realizarem como “super pais”. Apesar da justificativa de proteção aos filhos do mundo caótico em que vivemos, esse novo modelo de educação e demonstração de afeto desmascara uma sensação de culpa e o medo de fracassarem como pais.

A nova geração de pais inseguros cria seus filhos como se estivessem num reality show da Supernanny e esquecem que a melhor forma de educar é sendo autêntico.

Esse manual de instrução de “como ser pai no século XXI” retira das crianças o direto de ter a maior preciosidade da vida de um ser humano que é a referência e admiração pela imagem genuína do pai e da mãe.

Somos todos frutos das sinestesias da infância, do cheiro de café que o avô tomava no final da tarde, da Ave Maria que tocava no rádio de pilha da avó, da missa dos domingos que éramos obrigados a ir. São essas vivências e observações da essência individual de cada membro da família que cria um ser humano pensante, crítico e autêntico.

Quem não se conhece, não pode ajudar o outro a se conhecer. Quem não tem personalidade própria não pode ajudar o outro a conquistar sua autonomia. Vamos deixar de lado as receitas de bolo, modelos de criação americanizadas e regras de autoajuda, lembrando que o amor por si só é autoeducativo.

Janeiro 24, 2014

Quando o amor acaba

Um dia você percebe que os beijos já não são mais os mesmos, a admiração virou incômodo, a paixão se tornou pura compaixão e aquela pessoa não é mais o licor de cassis do seu creme de papaia ou o Robert Pattinson da sua Kristen Stewart.

Eis que no caminho florido rumo ao mundo de Oz, surge uma bifurcação e cada um precisa tomar um rumo diferente, mas na prática não é tão simples assim. O fim de um relacionamento pode ser tão sufocante quanto escalar o Everest sem uma bomba de oxigênio.

Ao escutar “não dá mais”, o amor cede espaço para a raiva  e todos os momentos bons passam como flashes na cabeça daquele que foi rejeitado, com a certeza absoluta do quanto você só quis apenas “se aproveitar”. Ele descobre que de nada adiantaram os dias ensolarados que vocês dividiram o mesmo sorvete, as músicas que escutaram durante as viagens nas férias e a garganta fica preenchida por cada grão de pipoca que mastigaram no cinema, assistindo ao último filme de Woody Allen. Ele não consegue entender como você consegue ser tão cínico, mentiroso e incapaz de saber amar. Você se torna um assassino de sonhos, ladrão de tempo, usurpador de almas.

Por mais que você tenha todos os cuidados para terminar a relação sem machucar o outro, por mais que tente conversar, explicar os motivos de ter tomado aquela decisão, que tenha coragem de abrir seus sentimentos mais profundos e confessar suas maiores fraquezas, o indivíduo que foi rejeitado decide se tornar seu maior inimigo pro resto da vida.

Ele vai passar dias, meses, anos, escutando conselhos dos amigos e familiares sobre o quanto é um ser humano infinitamente melhor, mais inteligente, maduro e mais iluminado que você. Ele vai buscar todas as provas que garantam que você é a pessoa mais mau caráter da face da Terra e terá plena convicção de que você nunca vai encontrar alguém que te faça feliz. Ele vai traçar todo seu infeliz destino e construirá sua história ao longo dos anos com a certeza que você será uma pessoa sozinha e amargurada, terminando seus dias de vida num abrigo público para idosos, recebendo medicamentos fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Você imediatamente se tornará alguém ruim, egoísta, insensível, que não sabe dar valor às pessoas, que não sabe amar, que não gosta de ninguém. Ele vai torcer para que você nunca consiga conquistar seus objetivos, para que você se envolva nos piores relacionamentos, se case com um traficante, seja traída com a vizinha e abandonada com cinco filhos na fila do Bolsa Família e nesse momento lembre com arrependimento do dia em que você decidiu por um fim em um relacionamento perfeito.

Ele vai fuçar suas redes sociais em busca de provas do quanto sua vida não tem o mínimo sentido sem a presença dele e vai perceber o quanto você é fútil, infantil e egoísta, se perguntando “como um dia conseguiu gostar de uma pessoa desprezível como você”.

Em casos mais graves ele vai divulgar suas fotos íntimas na internet, vai te ameaçar de morte, vai abrir um processo na Justiça contra você ou até mesmo vai tentar o suicídio só pra te deixar com remorso pelo resto da vida. Tudo isso simplesmente porque você decidiu que não quer mais viver sua vida ao lado daquela pessoa. Porque você optou por dar um fim a um relacionamento desgastado e resolveu tomar um novo rumo. Porque você exerceu o direito de escolha e foi buscar sua felicidade, agora terá que aguentar as consequências de uma vida fadada ao fracasso.Não importa o quanto você foi legal, amigo, companheiro, o quanto cuidou da pessoa enquanto ela estava doente, o quanto escolheu a dedo um presente especial para o dia dos namorados, o tanto que fez questão de deixar um bilhetinho especial de surpresa ou o “eu te amo” escrito no espelho do banheiro. Nada disso faz mais sentido. Com certeza era tudo mentira. Você passou dias, meses, anos da sua vida alimentando as esperanças de um ser humano indefeso e agora vai ter que queimar no fogo do inferno ao lado de Hitler e Judas.

Terminar um relacionamento é assumir a responsabilidade pelas mágoas, traumas e frustrações do outro. É ser o bode expiatório das inseguranças alheias, o gatilho para aflorar as dores mais secretas. Talvez por isso tantos casais continuem juntos durante anos, suportando viver em uma pseudofelicidade.

Terminar um relacionamento é um dos maiores atos de coragem que um ser humano pode ter. É saber se reestruturar a partir da própria dor, enquanto assume a responsabilidade pela dor do outro.

Apesar de todas as consequências, eu ainda prefiro ser a vilã que ser infeliz. Saint-Exupéry que me perdoe, mas tu te tornas eternamente responsável por aquilo que mantém na vida sem conseguir amar.

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