quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Psicólogo ou Terapeuta?


Você finalmente decidiu procurar um profissional pra iniciar um trabalho terapêutico, seja para resolver algum conflito interno, superar algum trauma, iniciar um processo de autoconhecimento ou atravessar um momento difícil. Agora é hora de pesquisar e conhecer bem a linha de pesquisa do profissional escolhido, para entender melhor o direcionamento do trabalho que será desenvolvido.
Canso de ver pessoas confundindo psicólogo com psicanalista, psiquiatra e psicoterapeuta. Por isso resolvi escrever esse texto, para esclarecer de vez essa dúvida.
O primeiro ponto a ser ressaltado é: Não apenas psicólogos podem ser terapeutas. Assim como não somente jornalistas podem escrever em jornal, não apenas administradores podem trabalhar com marketing, não somente arquitetos podem trabalhar com decoração.
A palavra terapia, de origem grega (therapeía), significa "método de tratar doenças” e abrange milhares de técnicas disponíveis. Cada qual escolhe o método que mais se identifica.
A faculdade de psicologia tem a duração de cinco anos, mas como toda graduação dispõe de diversas matérias genéricas. Observando algumas grades curriculares disponíveis nos sites das instituições de ensino, encontrei exemplos como filosofia, antropologia, sociologia, meio ambiente, sustentabilidade, conjuntura econômica, contextos culturais, empreendedorismo, arte, cultura, lógica, oficina de leitura e escrita, metodologia de pesquisa, bioestatística, comunicação, língua portuguesa, além de outras matérias optativas, disponíveis em outros cursos que não são da área da psicologia. Por isso é importante que o profissional que sai desse curso faça uma especialização para se aperfeiçoar na linha terapêutica que pretende atuar na clínica.
Já os cursos de formação para terapeutas dispensa esse tipo de matéria obrigatória na faculdade e focam apenas no tema escolhido. A formação em terapia transpessoal, por exemplo, aborda matérias sobre estados holotrópicos da consciência, matrizes perinatais, terapia regressiva, dentre outros. Ou seja, apesar de não ter necessariamente cursado a faculdade de psicologia, o terapeuta estará apto para exercer exclusivamente a técnica terapêutica que sua especialidade propõe. Ele não poderá atuar em outra linha terapêutica como a cognitivo comportamental ou Junguiana, por exemplo.
Existe uma rixa entre psicólogos e terapeutas, pois grande parte dos psicólogos não concorda com a ideia que terapeutas podem atuar em clínicas, da mesma forma que psicólogos. Mas imagina se o jornal fosse escrito apenas por jornalistas? Muitas vezes os artigos feitos por pessoas de outras áreas são mais interessantes, diversificados e bem elaborados. O importante é estudar bastante e dar o melhor de si naquilo que se propõe fazer.
Ao escolher um terapeuta ou psicólogo, não esqueça de perguntar qual a linha teórica que ele segue e observe se combina com seus anseios e sua filosofia de vida. Não adianta fazer terapia regressiva se não acredita em vidas passadas, não é mesmo?
Agora vamos entender melhor essas diferenças:

Terapeuta - Ele não é necessariamente um psicólogo ou psiquiatra, mas alguém que fez um curso de formação em uma técnica terapêutica específica. Existem os terapeutas de florais de Bach, de shiatsu, de constelações familiares, de arteterapia, bioenergética, psicodrama, dentre tantas outras técnicas.

Psicólogo - Este é o profissional formado em psicologia, que se estuda uma série de teorias e está apto para atuar em clínicas, empresas, escolas e instituições.

Psicoterapeuta – Psicólogo que atua como terapeuta, aplicando uma técnica específica (comportamental, Junguiana, cognitivo, Gestalt-Terapia, etc.). O prefixo “psico” não pode ser usado por terapeutas que não cursaram a faculdade de psicologia.

Psiquiatra - Profissional graduado em medicina, que está apto a tratar transtornos psiquiátricos que necessitam de medicamentos, os quais só o médico pode prescrever.

Psicanalista - Profissional graduado em qualquer área, que cursou a formação em psicanálise, linha de pensamento Freud.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Mais vale um olho no olho que um beijo no ombro


Imagino o dia em que, ao ligarmos a televisão, uma simpática dona de casa, em um charmoso comercial de um potente inseticida, aperta o spray na direção de uma divertida animação de pernilongo e diz, com ar blasé: “e ainda tem gente que não sabe cuidar da família”, criticando os vizinhos infectados pelo vírus da dengue.
Aí você desliga a TV e resolve sair de casa, enfrenta uma fila quilométrica para pagar uma conta no banco e ao chegar sua vez de ser atendido o atendente contorce os lábios e murmura: “tem gente que não sabe nem baixar um aplicativo no smartphone pra pagar uma conta”.
Na hora do almoço, ao fazer o pedido de um prato sugerido no cardápio do restaurante, o garçom te olha com desdém e comenta com o colega ao lado: “Tem gente que ainda quer emagrecer comendo besteira”.
Ou quem sabe você decide ligar para o call center da TV a cabo para reclamar da ausência de sinal e diante do seu nervosismo a telefonista debocha com um “livrai-me de todo mal, amém”, desligando na sua cara.
Exageros à parte, as cenas descritas acima parecem mais inusitadas que um roteiro de Woody Allen, mas a verdade é que vivemos atualmente o fenômeno da sociedade das indiretas, quando frases de motivação, orações e dicas de autoajuda são utilizadas para alfinetar o outro, numa tentativa frustrada de melhorar a si mesmo.
A nova forma de comemorar a felicidade é ressaltando a desgraça alheia com frases sutis, disfarçadas de conselhos motivacionais. As pessoas terminam um relacionamento e imediatamente publicam uma selfie no show de Bob Sinclar, com o Salmo 23 na legenda para mostrar que estão felizes.
Ninguém mais passa pelo luto, pois há uma necessidade constante de não demonstrar fraqueza para os “inimigos”. Aliás, nunca vi essa palavra ser tão usada desde as guerras do império romano. A diferença é que agora não se usa mais espadas: a arma agora chama-se felicidade. A alegria de um é a derrota do outro.
Ninguém deseja mais vida longa para os parentes ou pessoas que amam, a vida longa agora é destinada a tal das inimigas, para que elas sejam torturadas com a felicidade alheia.
Os inimigos não se digladiam com escudos, mas deixam a inveja alheia bater no salto 15 louboutin. Não derramam gotas de sangue, mas exalam perfume Dior. Não suam na arena do Coliseu, mas reluzem o brilho das joias Tiffany. É típica sociedade da alienação e da ostentação, retratada pelas lentes dos iPhones.
O novo de conceito de recalque deve deixar Freud se revirando no túmulo com tanto mal estar da civilização. O desejo de usar a felicidade como arma para destruir alguém, só mostra um indivíduo desestabilizado por um complexo de inferioridade, que utiliza uma imagem de poder para atenuar sua pulsão de ver a infelicidade do outro.
Ninguém que está de fato feliz se preocupa em mandar beijo no ombro. A felicidade é um sentimento que enobrece e nos torna altruístas. O impulso destrutivo de humilhar o outro só acontece por conta de uma frustração interna, que torna a felicidade tão falsa quanto os filtros do Instagram.
Imagina se Chico Buarque escrevesse a letra de ‘Olhos Nos Olhos’ dizendo: “quero ver o que vão fazer ao perceber que estou muito bem sem certas pessoas”. Poesia não se faz com um eu lírico que atira pra todos os lados, autoestima não se resgata através do ódio e indiretas não são capazes de resolver conflitos, mas ainda “tem gente que não consegue entender isso”.

Texto publicado na revista NB Plus (Agosto de 2014 - Edição 62):

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Você não é a Supernanny

Educar uma criança é uma das tarefas mais difíceis que um ser humano pode receber na vida. Isso porque nenhum adulto pode ser considerado uma tabula rasa, como diria o filósofo inglês John Locke. Cada indivíduo carrega suas histórias, seus traumas, suas inseguranças e certezas.
Ao receber a importante missão de educar alguém é necessário primeiramente ter a humildade de esvaziar as malas, desprover-se de conceitos prontos, lições de autoajuda e manuais de instruções, sem aquele velho discurso que “na minha época não era assim”.
Na sua época não existia internet, tablet, smartphone, cinema 3D, não existia beijo gay em novela e em Salvador nem tinha metrô. O mundo mudou, as crianças mudaram e o conceito de educação vem rabiscado num astigmatismo que não nos deixa ver exatamente quem ensina e quem aprende. Esse novo contexto traz uma indefinição entre emissor e receptor, mostrando que os pais aprendem enquanto ensinam, e vice-versa.
Certa vez meu filho brincava no playground do prédio com os amigos, quando de repente ouvi vozes que me chamavam através da janela. Eram as crianças, animadas, completamente molhadas de chuva, com os pés descalços, numa cena digna de fazer inveja a Gene Kelly em Singin' In The Rain.
Toda mãe é meio super-heroína e nessas horas o super poder que prevalece é a visão de raio-x, fazendo você enxergar cada vértebra desenhada pela radiação eletromagnética, com direito a pneumococos realizando um pas de deux na circulação sanguínea.
Seu impulso inicial é dar dois gritos e mandar a criança direto pro chuveiro, com direito a uma semana sem ver Minecraft no YouTube. Só que ao observar a alegria das crianças e perceber a confiança que depositaram em você para compartilhar aquele momento de subversão, você respira fundo, esboça uma expressão complacente de “Vênus” de Botticelli, quando por dentro se sente “O grito” de Munch e consegue dizer, com a voz meio rouca, de quem acabou de travar a epiglote: “que tal subir para tirar a camisa e tomar um banho? Já está muito tarde”.
Claro que é importante explicar ao seu filho que brincar descalço na chuva pode deixá-lo de molho na cama por um bom tempo, mas enquanto você passa esse ensinamento você também passa a compreender como funciona a mente de uma criança, submersa em um oceano de liberdade e descobertas. Você ensina que é preciso se proteger da chuva e aprende que é uma delícia render-se a ela.
A frase “porque sim” só funciona agora em comercial de cerveja. As crianças de hoje em dia precisam de diálogos e explicações convincentes do que é permitido e proibido.
Muitos desafios ainda virão: o primeiro beijo, o primeiro namorado, as curiosidades e experimentações. Como você pretende participar desse filme: no elenco ou na plateia? Que tipo de imagem você pretende passar para o seu filho: de repressão ou de cumplicidade?
A maioria dos pais só descobre o problema instalado quando a história já está bem avançada. Aí não adianta mais engolir um comprimido de rivotril e dar uma de Aécio Neves com seu bordão “Vamos conversar?”.
A confiança é construída desde a infância. Se você não estabelece esse elo com seu filho, depois não adianta reclamar que é sempre o último a saber das coisas, dizendo que a culpa é dos astros, das estrelas, de Dilma Rousseff ou da Lei da palmada.
Claro que isso não significa que os pais devem ser permissivos ou extremamente liberais, mas sim que devem respeitar a individualidade da criança como um ser humano único, com necessidades próprias, lembrando sempre que educar se torna fácil quando você descobre que está ali pra aprender.

Texto publicado na revista NB Plus (Julho de 2014 - Edição 61):

terça-feira, 8 de julho de 2014

Você não está tão apaixonado assim


Sempre que alguém resolve me contar o quanto está sofrendo por amor, como chora ouvindo aquela música sertaneja e tem certeza absoluta que se conversasse cinco minutos com Manoel Carlos seria fonte de inspiração para mais um clássico da teledramaturgia, eu costumo logo perguntar: o que você admira nessa pessoa?.
Não quero saber se o beijo dela é inesquecível, se ela é sósia da Scarlett Johansson, se é mestre em pompoarismo ou se tem um currículo que faria inveja a Stephen Hawking. Quero saber um detalhe irrelevante, um sotaque, um cheiro, um gosto musical inusitado, um estilo desajeitado de perder o celular na bolsa ou um jeito irritante de perguntar o que é pênalti bem na hora do chute decisivo aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo.
Quero saber se ele sempre veste a camisa pelo avesso, se tem um jeito hábil de lidar com criança, o quanto é chato como ele repete mil vezes a música do Nat King Cole, como é impressionante que ele nunca sabe onde deixou os óculos ou se ele não perde um livro de Jorge Luis Borges.
Não me interessa saber os ingredientes da receita, quero descobrir o tempero secreto. Não quero que me apontem os instrumentos, desejo escutar o arranjo da música. Não me interessa ver as vestimentas, mas sim os retalhos descartados no chão. Não preciso de efeitos especiais de produções hollywoodianas, mas do silêncio demasiado humano dos filmes cult europeus.
Se não tiver cotidiano, costumes, trejeitos e sinestesias, desconfio que não seja realmente paixão. Se listar pelo menos cinco coisas que você admira na pessoa é mais difícil que cantar o hino da Croácia, sinto muito, meu caro, mas acho que você não está tão apaixonado assim.
Paixão não se escolhe numa vitrine, não é medida pela beleza, nem pela quantidade de dígitos na conta corrente. Se você não consegue enxergar características renascentistas num típico traço expressionista, é bem possível que não esteja verdadeiramente enxergando o mundo com as lentes da paixão.
O que mais impressiona é que sempre que faço esse tipo de questionamento, a maioria das pessoas que jura sofrer por amor não consegue sequer dizer um pequeno detalhe digno de admiração. Muitas chegam a afirmar que o outro não tem qualidade alguma ou que “não vale nada” e ainda solta o típico argumento que “acha que nasceu pra sofrer”.
Nessas horas lembro-me da frase do escritor gaúcho, Fabrício Carpinejar, que diz que “amor não é acaso, nem destino: é teimosia”. Para amar alguém é preciso uma boa dose de força de vontade. Você simplesmente bota na cabeça que não consegue mais viver sem aquela pessoa e até um simples encontro inusitado na fila do supermercado já se torna sinal certeiro que vocês são almas gêmeas cumprindo um resgate de outras vidas.
Sinto muito lhe decepcionar, mas se você não consegue descrever as qualidades da pessoa amada, um detalhe inusitado, um gesto, um tique, uma gargalhada estridente que te mata de vergonha, uma imperfeição minuciosa, mas que ainda assim que te mata de orgulho; é mais provável que você seja um caso típico daqueles que ama estar apaixonado, não importa por quem quer que seja.
Se não te desperta brilho nos olhos é provável que esse sentimento seja apenas um passatempo ou uma vontade desesperada de preencher as noites de sábado com algo mais emocionante que as cenas de Zorra Total.
Gostar da sensação de estar apaixonado é mais comum que se imagina. Às vezes tudo que você precisa é ter alguém pra passear nos pensamentos enquanto está preso no engarrafamento e toca Paula Fernandes na rádio. A paixão tem o poder de acionar áreas importantes do cérebro e deixa o indivíduo refém dos próprios hormônios. Para alguns, a sensação de estar apaixonado pode ser tão prazerosa que o primeiro que aparece na janela já é motivo suficiente para jogar as tranças.
Se você se identifica com a descrição vale a pena questionar o que de fato está faltando em sua vida para motivar esse sentimento ilusório, que faz você enxergar Shakespeare nas entrelinhas de Agatha Christie.
Paixão sem admiração não é paixão, é carência. É o vazio interno que te leva ao pior desencontro: perder-se de si mesmo.

Texto publicado na revista NB Plus (Junho de 2014 - Edição 60):

terça-feira, 1 de julho de 2014

Há que conviver, sem perder a ternura jamais

Assim falou Fernando Pessoa: "Quem não quiser sofrer que se isole. Feche as portas da sua alma quanto possível à luz do convívio". Apesar de bonita, a frase é quase impossível de ser colocada em prática. Desde que você não seja um astronauta se preparando para a próxima decolagem até a órbita da Terra, qualquer pessoa em idade produtiva, que trabalha, cuida da casa, da família e do cachorrinho de estimação, precisa manter contato diário com outros seres humanos, mesmo que seja apenas para pedir uma pizza delivery.
Ao colocar os pés fora de casa você já está suscetível ao mau humor do caixa do supermercado, do vendedor da loja, do porteiro, dos motoristas de trânsito, do professor, do chefe, do cliente ou do colega de trabalho. Nunca se sabe quem está na TPM, com problemas pessoais, crise financeira ou se o alinhamento planetário no signo de touro prevê tensões e conflitos para aquele dia.
Desde que me tornei jornalista tive que me acostumar a ter que abordar diariamente pessoas, para solicitar entrevistas, sem saber o grau de receptividade que viria do interlocutor. A obrigação de manter contato diário com gente desconhecida me fez acreditar que existem dois tipos de seres humanos: Os que fazem a vida valer a pena e as que nos dão vontade de pular fora desse planeta (Plagiando Pessoa, vontade de fechar as portas da alma à luz do convívio).
O primeiro tipo irradia carisma, alegria e força de vontade. São indivíduos que nos desperta a vontade de estarmos perto, que têm sempre uma palavra mágica na hora certa e nos dão sugestões que nos tiram do sufoco. São pessoas que dão ‘bom dia’, nos recebem com um sorriso, dão um abraço apertado deixando um rastro de perfume gostoso, oferecem um cafezinho, sabem escutar, têm brilho nos olhos e trabalham com tanto amor que conseguem motivar uma equipe inteira.
Não importa qual a profissão ou posição social que exerçam. São pessoas que preenchem o mundo com gentileza, com uma naturalidade que não se aprende nas aulas de marketing. É algo nato que tem a ver com contentamento interno e realização pessoal.
Claro que não dá pra viver o tempo inteiro como se estivéssemos no céu da novela ‘A Viagem’. Todo mundo tem problemas, mau humor, estresse e cansaço, mas pessoas bem resolvidas não saem por aí dividindo o inferno astral com o carteiro ou o entregador de pizza. Essa é a diferença básica dos indivíduos que são fonte de inspiração para os que vivem em um eterno vazio.
Pessoas leves e bem-humoradas sabem contornar as adversidades da vida, têm uma melhor percepção dos de seus verdadeiros talentos e conseguem colocar em prática ações que podem mudar pra melhor a vida de alguém. Já as pessoas cronicamente insatisfeitas reclamam que não têm o emprego dos sonhos, não têm amigos que correspondem às suas expectativas, nunca têm dinheiro suficiente e passam o dia de braços cruzados, criticando a previsão do tempo, o aumento do IPTU e a compra da refinaria de Passadena.
Ter senso crítico é importante, reclamar é necessário, mas botar a mão na massa pra realizar mudanças é mais válido ainda. Por menor que seja a contribuição, sempre há uma oportunidade de colaborar para tornar o planeta mais habitável, as pessoas mais sociáveis e o mundo mais gostoso de viver.
É mais fácil trazer um pouquinho de esperança pra vida de alguém ao cumprimentar o vizinho que fazendo o Caminho de Santiago ou escalando o Everest. Não estou desvalorizando a busca pelo autoconhecimento, a superação de limites ou o despertar da espiritualidade, mas até os grandes mestres da humanidade, que se ausentaram por um tempo em retiro espiritual, tinham o objetivo claro de encontrar a si mesmo para doar-se ao outro.
O mundo precisa de exemplos, de incentivos, de relações humanizadas, de gente que gosta de gente. Fechar as portas da alma e se privar da luz do convívio pode até evitar o sofrimento individual momentâneo, mas não possibilita o amadurecimento e crescimento coletivo.
Estamos aqui para aprender a conviver uns com os outros, com sabedoria, deixando as portas da alma bem abertas, pois o mundo lá fora é muito mais bonito que o visto pelas frestas.

Texto publicado na revista NB Plus (Maio de 2014 - Edição 59):

Texto publicado na revista Revista Yacht (Junho de 2014 - Edição 80):
http://revistas.canal2.com.br/yacht80/#/52/zoomed

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Os novos pais


Eu era apenas uma criança de oito ou nove anos de idade, sentada no sofá da sala, observando meu pai colocar um CD de Raul Seixas para tocar. “Escuta a letra dessa música. Presta bem atenção e me diz o que achou”, disse ele.
Era “O trem das sete” (...) Vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem (...) fumegando, apitando (...) É o trem das sete horas, é o último do sertão (...)
“Tava na cara que esse tal desse trem só podia ser mesmo a morte”, pensei. Matei a charada de primeira, enchendo meu pai de orgulho, e anos mais tarde resolvi repetir o mesmo teste com meu filho.
Nem deu tempo de Raul aquecer as cordas vocais e meu filho logo disse: “Tira essa música horrível. Não quero ouvir mais não”, reclamou, sem a mínima motivação para interpretar do que se tratava aquele trem que não precisava de passagem nem bagagem.
Pode parecer chato demais exigir isso de uma criança, mas nesse momento me dei conta que talvez eu tenha vivido a última geração dos filhos que cresceram escutando as canções que tocavam na vitrola dos pais, com influências de Elvis Presley a Paulo Diniz.
Transitávamos de forma natural e tranquila entre os contos de Malba Tahan e gibis da Turma da Mônica, sabendo bem onde começava e terminava o nosso espaço. Assistíamos ao Show da Xuxa, mas sabíamos que tínhamos que fazer silêncio na hora de Brega & Chique. Tínhamos nossa cota de filmes infantis na locadora, mas acabávamos vendo Silêncio dos Inocentes, caso não tivesse nada melhor pra fazer em uma tarde chuvosa. Tudo isso sem pressão, sem censura e sem traumas.
Qual foi a criança dos anos 80 que nunca nunca sentiu medo quando Zé Ramalho começava a cantar “Mistérios da Meia-Noite” para anunciar a chegada do lobisomem na reprise de Roque Santeiro? Quem nunca passou uma tarde de domingo ouvindo Silvio Santos mandar abrir as portas da esperança? Quem nunca imitou a voz de Gil Gomes (do Aqui Agora) com os coleguinhas da escola? Qual foi o menino que não morria de curiosidade para assistir um trechinho da extinta Sexta Sexy da Band, escondido dos pais?
Não só assistíamos novelas, como sabíamos os nomes dos atores. Ou vá dizer que você não sabia que era Ney Latorraca que interpretava Vlad na novela Vamp?
As crianças de antigamente eram obrigadas a criar suas próprias estratégias para se adaptar ao universo dos pais e transitavam entre o mundo lúdico da infância e a rotina da vida os adultos, de forma natural e divertida.
Hoje, vivemos num mundo em que os pais modificam seus hábitos exclusivamente em prol dos filhos. Vivemos na ditadura do politicamente correto, das crianças engessadas e educadas pelo Discovery Kids, dos pais obrigados a decorar todas as letras das músicas da Galinha Pintadinha e que acreditam que sair de casa sem um tablet é tarefa mais difícil que os desafios do He-Man.
Toda programação da família é feita em prol da tentativa de ocupar a mente dos pequenos. As crianças não têm direito nem mais de sentir tédio e só vão para restaurante se tiver cardápio kids e Wi-Fi.
Os pais participam das reuniões escolares de maneira ansiosa, questionam o método pedagógico e indagam até qual a melhor forma de corrigir uma palavra que o filho escreveu errado na lição da escola. Quem não teve tempo de assistir Rio 2 tem motivo suficiente pra se sentir a pior das criaturas da face da Terra. Não saber o que são Minions ou nunca ter visto uma arena de beyblade é assinar um atestado de incompetência.
Antigamente crianças brincavam com crianças em um universo particular, criavam suas próprias regras e aventuras. Os adultos só apareciam para avisar que era hora de comer e tomar banho, como meros coadjuvantes, a exemplo das pernas da babá dos Muppet Babies.
Os pais de hoje sentem a necessidade de entrar em cena, rolar no tapete, se jogar na grama do parque. São pais fabricados, que escondem seus medos por detrás da coletânea de filmes dos Backyardigans.
Claro que não há nada de errado em proporcionar lazer aos filhos, brincar com a criança no chão, jogar videogame ou trocar o Jornal Nacional pelo Cartoon Network. O problema é quando a criança deixa de ter uma referência saudável de quem são seus pais, do que eles gostam, o que eles pensam, escutam ou leem, para viverem como filhos de robôs que leem Jean Piaget pra ajudar em um simples dever de casa.
Imagino esses filhos como ratinhos de laboratório, vítimas de um experimento científico de pais que jogam todas as suas frustrações pessoais na tentativa de se realizarem como "super pais". Apesar da justificativa de proteção aos filhos do mundo caótico em que vivemos, esse novo modelo de educação e demonstração de afeto desmascara uma sensação de culpa e o medo de fracassarem como pais.
A nova geração de pais inseguros cria seus filhos como se estivessem num reality show da Supernanny e esquecem que a melhor forma de educar é sendo autêntico.
Esse manual de instrução de “como ser pai no século XXI” retira das crianças o direto de ter a maior preciosidade da vida de um ser humano que é a referência e admiração pela imagem genuína do pai e da mãe.
Somos todos frutos das sinestesias da infância, do cheiro de café que o avô tomava no final da tarde, da Ave Maria que tocava no rádio de pilha da avó, da missa dos domingos que éramos obrigados a ir. São essas vivências e observações da essência individual de cada membro da família que cria um ser humano pensante, crítico e autêntico.
Quem não se conhece, não pode ajudar o outro a se conhecer. Quem não tem personalidade própria não pode ajudar o outro a conquistar sua autonomia. Vamos deixar de lado as receitas de bolo, modelos de criação americanizadas e regras de autoajuda, lembrando que o amor por si só é autoeducativo.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Quando o amor acaba


Um dia você percebe que os beijos já não são mais os mesmos, a admiração virou incômodo, a paixão se tornou pura compaixão e aquela pessoa não é mais o licor de cassis do seu creme de papaia ou o Robert Pattinson da sua Kristen Stewart.
Eis que no caminho florido rumo ao mundo de Oz, surge uma bifurcação e cada um precisa tomar um rumo diferente, mas na prática não é tão simples assim. O fim de um relacionamento pode ser tão sufocante quanto escalar o Everest sem uma bomba de oxigênio.
Ao escutar "não dá mais", o amor cede espaço para a raiva  e todos os momentos bons passam como flashes na cabeça daquele que foi rejeitado, com a certeza absoluta do quanto você só quis apenas “se aproveitar”. Ele descobre que de nada adiantaram os dias ensolarados que vocês dividiram o mesmo sorvete, as músicas que escutaram durante as viagens nas férias e a garganta fica preenchida por cada grão de pipoca que mastigaram no cinema, assistindo ao último filme de Woody Allen. 
Ele não consegue entender como você consegue ser tão cínico, mentiroso e incapaz de saber amar. Você se torna um assassino de sonhos, ladrão de tempo, usurpador de almas.
Por mais que você tenha todos os cuidados para terminar a relação sem machucar o outro, por mais que tente conversar, explicar os motivos de ter tomado aquela decisão, que tenha coragem de abrir seus sentimentos mais profundos e confessar suas maiores fraquezas, o indivíduo que foi rejeitado decide se tornar seu maior inimigo pro resto da vida.
Ele vai passar dias, meses, anos, escutando conselhos dos amigos e familiares sobre o quanto é um ser humano infinitamente melhor, mais inteligente, maduro e mais iluminado que você. Ele vai buscar todas as provas que garantam que você é a pessoa mais mau caráter da face da Terra e terá plena convicção de que você nunca vai encontrar alguém que te faça feliz. Ele vai traçar todo seu infeliz destino e construirá sua história ao longo dos anos com a certeza que você será uma pessoa sozinha e amargurada, terminando seus dias de vida num abrigo público para idosos, recebendo medicamentos fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Você imediatamente se tornará alguém ruim, egoísta, insensível, que não sabe dar valor às pessoas, que não sabe amar, que não gosta de ninguém. Ele vai torcer para que você nunca consiga conquistar seus objetivos, para que você se envolva nos piores relacionamentos, se case com um traficante, seja traída com a vizinha e abandonada com cinco filhos na fila do Bolsa Família e nesse momento lembre com arrependimento do dia em que você decidiu por um fim em um relacionamento perfeito.
Ele vai fuçar suas redes sociais em busca de provas do quanto sua vida não tem o mínimo sentido sem a presença dele e vai perceber o quanto você é fútil, infantil e egoísta, se perguntando “como um dia conseguiu gostar de uma pessoa desprezível como você”.
Em casos mais graves ele vai divulgar suas fotos íntimas na internet, vai te ameaçar de morte, vai abrir um processo na Justiça contra você ou até mesmo vai tentar o suicídio só pra te deixar com remorso pelo resto da vida. Tudo isso simplesmente porque você decidiu que não quer mais viver sua vida ao lado daquela pessoa. Porque você optou por dar um fim a um relacionamento desgastado e resolveu tomar um novo rumo. Porque você exerceu o direito de escolha e foi buscar sua felicidade, agora terá que aguentar as consequências de uma vida fadada ao fracasso.
Não importa o quanto você foi legal, amigo, companheiro, o quanto cuidou da pessoa enquanto ela estava doente, o quanto escolheu a dedo um presente especial para o dia dos namorados, o tanto que fez questão de deixar um bilhetinho especial de surpresa ou o “eu te amo” escrito no espelho do banheiro. Nada disso faz mais sentido. Com certeza era tudo mentira. Você passou dias, meses, anos da sua vida alimentando as esperanças de um ser humano indefeso e agora vai ter que queimar no fogo do inferno ao lado de Hitler e Judas.
Terminar um relacionamento é assumir a responsabilidade pelas mágoas, traumas e frustações do outro. É ser o bode expiatório das inseguranças alheias, o gatilho para aflorar as dores mais secretas do outro. Talvez por isso tantos casais continuem juntos durante anos, suportando viver em uma pseudofelicidade.
Terminar um relacionamento é um dos maiores atos de coragem que um ser humano pode ter. É saber se reestruturar a partir da própria dor, enquanto assume a responsabilidade pela dor do outro.
Apesar de todas as consequências, eu ainda prefiro ser a vilã que ser infeliz. Saint-Exupéry que me perdoe, mas tu te tornas eternamente responsável por aquilo que mantém na vida sem conseguir amar.