terça-feira, 8 de julho de 2014

Você não está tão apaixonado assim


Sempre que alguém resolve me contar o quanto está sofrendo por amor, como chora ouvindo aquela música sertaneja e tem certeza absoluta que se conversasse cinco minutos com Manoel Carlos seria fonte de inspiração para mais um clássico da teledramaturgia, eu costumo logo perguntar: o que você admira nessa pessoa?.
Não quero saber se o beijo dela é inesquecível, se ela é sósia da Scarlett Johansson, se é mestre em pompoarismo ou se tem um currículo que faria inveja a Stephen Hawking. Quero saber um detalhe irrelevante, um sotaque, um cheiro, um gosto musical inusitado, um estilo desajeitado de perder o celular na bolsa ou um jeito irritante de perguntar o que é pênalti bem na hora do chute decisivo aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo.
Quero saber se ele sempre veste a camisa pelo avesso, se tem um jeito hábil de lidar com criança, o quanto é chato como ele repete mil vezes a música do Nat King Cole, como é impressionante que ele nunca sabe onde deixou os óculos ou se ele não perde um livro de Jorge Luis Borges.
Não me interessa saber os ingredientes da receita, quero descobrir o tempero secreto. Não quero que me apontem os instrumentos, desejo escutar o arranjo da música. Não me interessa ver as vestimentas, mas sim os retalhos descartados no chão. Não preciso de efeitos especiais de produções hollywoodianas, mas do silêncio demasiado humano dos filmes cult europeus.
Se não tiver cotidiano, costumes, trejeitos e sinestesias, desconfio que não seja realmente paixão. Se listar pelo menos cinco coisas que você admira na pessoa é mais difícil que cantar o hino da Croácia, sinto muito, meu caro, mas acho que você não está tão apaixonado assim.
Paixão não se escolhe numa vitrine, não é medida pela beleza, nem pela quantidade de dígitos na conta corrente. Se você não consegue enxergar características renascentistas num típico traço expressionista, é bem possível que não esteja verdadeiramente enxergando o mundo com as lentes da paixão.
O que mais impressiona é que sempre que faço esse tipo de questionamento, a maioria das pessoas que jura sofrer por amor não consegue sequer dizer um pequeno detalhe digno de admiração. Muitas chegam a afirmar que o outro não tem qualidade alguma ou que “não vale nada” e ainda solta o típico argumento que “acha que nasceu pra sofrer”.
Nessas horas lembro-me da frase do escritor gaúcho, Fabrício Carpinejar, que diz que “amor não é acaso, nem destino: é teimosia”. Para amar alguém é preciso uma boa dose de força de vontade. Você simplesmente bota na cabeça que não consegue mais viver sem aquela pessoa e até um simples encontro inusitado na fila do supermercado já se torna sinal certeiro que vocês são almas gêmeas cumprindo um resgate de outras vidas.
Sinto muito lhe decepcionar, mas se você não consegue descrever as qualidades da pessoa amada, um detalhe inusitado, um gesto, um tique, uma gargalhada estridente que te mata de vergonha, uma imperfeição minuciosa, mas que ainda assim que te mata de orgulho; é mais provável que você seja um caso típico daqueles que ama estar apaixonado, não importa por quem quer que seja.
Se não te desperta brilho nos olhos é provável que esse sentimento seja apenas um passatempo ou uma vontade desesperada de preencher as noites de sábado com algo mais emocionante que as cenas de Zorra Total.
Gostar da sensação de estar apaixonado é mais comum que se imagina. Às vezes tudo que você precisa é ter alguém pra passear nos pensamentos enquanto está preso no engarrafamento e toca Paula Fernandes na rádio. A paixão tem o poder de acionar áreas importantes do cérebro e deixa o indivíduo refém dos próprios hormônios. Para alguns, a sensação de estar apaixonado pode ser tão prazerosa que o primeiro que aparece na janela já é motivo suficiente para jogar as tranças.
Se você se identifica com a descrição vale a pena questionar o que de fato está faltando em sua vida para motivar esse sentimento ilusório, que faz você enxergar Shakespeare nas entrelinhas de Agatha Christie.
Paixão sem admiração não é paixão, é carência. É o vazio interno que te leva ao pior desencontro: perder-se de si mesmo.

Texto publicado na revista NB Plus (Junho de 2014 - Edição 60):

terça-feira, 1 de julho de 2014

Há que conviver, sem perder a ternura jamais


Assim falou Fernando Pessoa: "Quem não quiser sofrer que se isole. Feche as portas da sua alma quanto possível à luz do convívio". Apesar de bonita, a frase é quase impossível de ser colocada em prática. Desde que você não seja um astronauta se preparando para a próxima decolagem até a órbita da Terra, qualquer pessoa em idade produtiva, que trabalha, cuida da casa, da família e do cachorrinho de estimação, precisa manter contato diário com outros seres humanos, mesmo que seja apenas para pedir uma pizza delivery.
Ao colocar os pés fora de casa você já está suscetível ao mau humor do caixa do supermercado, do vendedor da loja, do porteiro, dos motoristas de trânsito, do professor, do chefe, do cliente ou do colega de trabalho. Nunca se sabe quem está na TPM, com problemas pessoais, crise financeira ou se o alinhamento planetário no signo de touro prevê tensões e conflitos para aquele dia.
Desde que me tornei jornalista tive que me acostumar a ter que abordar diariamente pessoas, para solicitar entrevistas, sem saber o grau de receptividade que viria do interlocutor. A obrigação de manter contato diário com gente desconhecida me fez acreditar que existem dois tipos de seres humanos: Os que fazem a vida valer a pena e as que nos dão vontade de pular fora desse planeta (Plagiando Pessoa, vontade de fechar as portas da alma à luz do convívio).
O primeiro tipo irradia carisma, alegria e força de vontade. São indivíduos que nos desperta a vontade de estarmos perto, que têm sempre uma palavra mágica na hora certa e nos dão sugestões que nos tiram do sufoco. São pessoas que dão ‘bom dia’, nos recebem com um sorriso, dão um abraço apertado deixando um rastro de perfume gostoso, oferecem um cafezinho, sabem escutar, têm brilho nos olhos e trabalham com tanto amor que conseguem motivar uma equipe inteira.
Não importa qual a profissão ou posição social que exerçam. São pessoas que preenchem o mundo com gentileza, com uma naturalidade que não se aprende nas aulas de marketing. É algo nato que tem a ver com contentamento interno e realização pessoal.
Claro que não dá pra viver o tempo inteiro como se estivéssemos no céu da novela ‘A Viagem’. Todo mundo tem problemas, mau humor, estresse e cansaço, mas pessoas bem resolvidas não saem por aí dividindo o inferno astral com o carteiro ou o entregador de pizza. Essa é a diferença básica dos indivíduos que são fonte de inspiração para os que vivem em um eterno vazio.
Pessoas leves e bem-humoradas sabem contornar as adversidades da vida, têm uma melhor percepção dos de seus verdadeiros talentos e conseguem colocar em prática ações que podem mudar pra melhor a vida de alguém. Já as pessoas cronicamente insatisfeitas reclamam que não têm o emprego dos sonhos, não têm amigos que correspondem às suas expectativas, nunca têm dinheiro suficiente e passam o dia de braços cruzados, criticando a previsão do tempo, o aumento do IPTU e a compra da refinaria de Passadena.
Ter senso crítico é importante, reclamar é necessário, mas botar a mão na massa pra realizar mudanças é mais válido ainda. Por menor que seja a contribuição, sempre há uma oportunidade de colaborar para tornar o planeta mais habitável, as pessoas mais sociáveis e o mundo mais gostoso de viver.
É mais fácil trazer um pouquinho de esperança pra vida de alguém ao cumprimentar o vizinho que fazendo o Caminho de Santiago ou escalando o Everest. Não estou desvalorizando a busca pelo autoconhecimento, a superação de limites ou o despertar da espiritualidade, mas até os grandes mestres da humanidade, que se ausentaram por um tempo em retiro espiritual, tinham o objetivo claro de encontrar a si mesmo para doar-se ao outro.
O mundo precisa de exemplos, de incentivos, de relações humanizadas, de gente que gosta de gente. Fechar as portas da alma e se privar da luz do convívio pode até evitar o sofrimento individual momentâneo, mas não possibilita o amadurecimento e crescimento coletivo.
Estamos aqui para aprender a conviver uns com os outros, com sabedoria, deixando as portas da alma bem abertas, pois o mundo lá fora é muito mais bonito que o visto pelas frestas.

Texto publicado na revista NB Plus (Maio de 2014 - Edição 59):

Texto publicado na revista Revista Yacht (Junho de 2014 - Edição 80):
http://revistas.canal2.com.br/yacht80/#/52/zoomed

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Os novos pais


Eu era apenas uma criança de oito ou nove anos de idade, sentada no sofá da sala, observando meu pai colocar um CD de Raul Seixas para tocar. “Escuta a letra dessa música. Presta bem atenção e me diz o que achou”, disse ele.
Era “O trem das sete” (...) Vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem (...) fumegando, apitando (...) É o trem das sete horas, é o último do sertão (...)
“Tava na cara que esse tal desse trem só podia ser mesmo a morte”, pensei. Matei a charada de primeira, enchendo meu pai de orgulho, e anos mais tarde resolvi repetir o mesmo teste com meu filho.
Nem deu tempo de Raul aquecer as cordas vocais e meu filho logo disse: “Tira essa música horrível. Não quero ouvir mais não”, reclamou, sem a mínima motivação para interpretar do que se tratava aquele trem que não precisava de passagem nem bagagem.
Pode parecer chato demais exigir isso de uma criança, mas nesse momento me dei conta que talvez eu tenha vivido a última geração dos filhos que cresceram escutando as canções que tocavam na vitrola dos pais, com influências de Elvis Presley a Paulo Diniz.
Transitávamos de forma natural e tranquila entre os contos de Malba Tahan e gibis da Turma da Mônica, sabendo bem onde começava e terminava o nosso espaço. Assistíamos ao Show da Xuxa, mas sabíamos que tínhamos que fazer silêncio na hora de Brega & Chique. Tínhamos nossa cota de filmes infantis na locadora, mas acabávamos vendo Silêncio dos Inocentes, caso não tivesse nada melhor pra fazer em uma tarde chuvosa. Tudo isso sem pressão, sem censura e sem traumas.
Qual foi a criança dos anos 80 que nunca nunca sentiu medo quando Zé Ramalho começava a cantar “Mistérios da Meia-Noite” para anunciar a chegada do lobisomem na reprise de Roque Santeiro? Quem nunca passou uma tarde de domingo ouvindo Silvio Santos mandar abrir as portas da esperança? Quem nunca imitou a voz de Gil Gomes (do Aqui Agora) com os coleguinhas da escola? Qual foi o menino que não morria de curiosidade para assistir um trechinho da extinta Sexta Sexy da Band, escondido dos pais?
Não só assistíamos novelas, como sabíamos os nomes dos atores. Ou vá dizer que você não sabia que era Ney Latorraca que interpretava Vlad na novela Vamp?
As crianças de antigamente eram obrigadas a criar suas próprias estratégias para se adaptar ao universo dos pais e transitavam entre o mundo lúdico da infância e a rotina da vida os adultos, de forma natural e divertida.
Hoje, vivemos num mundo em que os pais modificam seus hábitos exclusivamente em prol dos filhos. Vivemos na ditadura do politicamente correto, das crianças engessadas e educadas pelo Discovery Kids, dos pais obrigados a decorar todas as letras das músicas da Galinha Pintadinha e que acreditam que sair de casa sem um tablet é tarefa mais difícil que os desafios do He-Man.
Toda programação da família é feita em prol da tentativa de ocupar a mente dos pequenos. As crianças não têm direito nem mais de sentir tédio e só vão para restaurante se tiver cardápio kids e Wi-Fi.
Os pais participam das reuniões escolares de maneira ansiosa, questionam o método pedagógico e indagam até qual a melhor forma de corrigir uma palavra que o filho escreveu errado na lição da escola. Quem não teve tempo de assistir Rio 2 tem motivo suficiente pra se sentir a pior das criaturas da face da Terra. Não saber o que são Minions ou nunca ter visto uma arena de beyblade é assinar um atestado de incompetência.
Antigamente crianças brincavam com crianças em um universo particular, criavam suas próprias regras e aventuras. Os adultos só apareciam para avisar que era hora de comer e tomar banho, como meros coadjuvantes, a exemplo das pernas da babá dos Muppet Babies.
Os pais de hoje sentem a necessidade de entrar em cena, rolar no tapete, se jogar na grama do parque. São pais fabricados, que escondem seus medos por detrás da coletânea de filmes dos Backyardigans.
Claro que não há nada de errado em proporcionar lazer aos filhos, brincar com a criança no chão, jogar videogame ou trocar o Jornal Nacional pelo Cartoon Network. O problema é quando a criança deixa de ter uma referência saudável de quem são seus pais, do que eles gostam, o que eles pensam, escutam ou leem, para viverem como filhos de robôs que leem Jean Piaget pra ajudar em um simples dever de casa.
Imagino esses filhos como ratinhos de laboratório, vítimas de um experimento científico de pais que jogam todas as suas frustrações pessoais na tentativa de se realizarem como "super pais". Apesar da justificativa de proteção aos filhos do mundo caótico em que vivemos, esse novo modelo de educação e demonstração de afeto desmascara uma sensação de culpa e o medo de fracassarem como pais.
A nova geração de pais inseguros cria seus filhos como se estivessem num reality show da Supernanny e esquecem que a melhor forma de educar é sendo autêntico.
Esse manual de instrução de “como ser pai no século XXI” retira das crianças o direto de ter a maior preciosidade da vida de um ser humano que é a referência e admiração pela imagem genuína do pai e da mãe.
Somos todos frutos das sinestesias da infância, do cheiro de café que o avô tomava no final da tarde, da Ave Maria que tocava no rádio de pilha da avó, da missa dos domingos que éramos obrigados a ir. São essas vivências e observações da essência individual de cada membro da família que cria um ser humano pensante, crítico e autêntico.
Quem não se conhece, não pode ajudar o outro a se conhecer. Quem não tem personalidade própria não pode ajudar o outro a conquistar sua autonomia. Vamos deixar de lado as receitas de bolo, modelos de criação americanizadas e regras de autoajuda, lembrando que o amor por si só é autoeducativo.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Quando o amor acaba


Um dia você percebe que os beijos já não são mais os mesmos, a admiração virou incômodo, a paixão se tornou pura compaixão e aquela pessoa não é mais o licor de cassis do seu creme de papaia ou o Robert Pattinson da sua Kristen Stewart.
Eis que no caminho florido rumo ao mundo de Oz, surge uma bifurcação e cada um precisa tomar um rumo diferente, mas na prática não é tão simples assim. O fim de um relacionamento pode ser tão sufocante quanto escalar o Everest sem uma bomba de oxigênio.
Ao escutar "não dá mais", o amor cede espaço para a raiva  e todos os momentos bons passam como flashes na cabeça daquele que foi rejeitado, com a certeza absoluta do quanto você só quis apenas “se aproveitar”. Ele descobre que de nada adiantaram os dias ensolarados que vocês dividiram o mesmo sorvete, as músicas que escutaram durante as viagens nas férias e a garganta fica preenchida por cada grão de pipoca que mastigaram no cinema, assistindo ao último filme de Woody Allen. 
Ele não consegue entender como você consegue ser tão cínico, mentiroso e incapaz de saber amar. Você se torna um assassino de sonhos, ladrão de tempo, usurpador de almas.
Por mais que você tenha todos os cuidados para terminar a relação sem machucar o outro, por mais que tente conversar, explicar os motivos de ter tomado aquela decisão, que tenha coragem de abrir seus sentimentos mais profundos e confessar suas maiores fraquezas, o indivíduo que foi rejeitado decide se tornar seu maior inimigo pro resto da vida.
Ele vai passar dias, meses, anos, escutando conselhos dos amigos e familiares sobre o quanto é um ser humano infinitamente melhor, mais inteligente, maduro e mais iluminado que você. Ele vai buscar todas as provas que garantam que você é a pessoa mais mau caráter da face da Terra e terá plena convicção de que você nunca vai encontrar alguém que te faça feliz. Ele vai traçar todo seu infeliz destino e construirá sua história ao longo dos anos com a certeza que você será uma pessoa sozinha e amargurada, terminando seus dias de vida num abrigo público para idosos, recebendo medicamentos fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Você imediatamente se tornará alguém ruim, egoísta, insensível, que não sabe dar valor às pessoas, que não sabe amar, que não gosta de ninguém. Ele vai torcer para que você nunca consiga conquistar seus objetivos, para que você se envolva nos piores relacionamentos, se case com um traficante, seja traída com a vizinha e abandonada com cinco filhos na fila do Bolsa Família e nesse momento lembre com arrependimento do dia em que você decidiu por um fim em um relacionamento perfeito.
Ele vai fuçar suas redes sociais em busca de provas do quanto sua vida não tem o mínimo sentido sem a presença dele e vai perceber o quanto você é fútil, infantil e egoísta, se perguntando “como um dia conseguiu gostar de uma pessoa desprezível como você”.
Em casos mais graves ele vai divulgar suas fotos íntimas na internet, vai te ameaçar de morte, vai abrir um processo na Justiça contra você ou até mesmo vai tentar o suicídio só pra te deixar com remorso pelo resto da vida. Tudo isso simplesmente porque você decidiu que não quer mais viver sua vida ao lado daquela pessoa. Porque você optou por dar um fim a um relacionamento desgastado e resolveu tomar um novo rumo. Porque você exerceu o direito de escolha e foi buscar sua felicidade, agora terá que aguentar as consequências de uma vida fadada ao fracasso.
Não importa o quanto você foi legal, amigo, companheiro, o quanto cuidou da pessoa enquanto ela estava doente, o quanto escolheu a dedo um presente especial para o dia dos namorados, o tanto que fez questão de deixar um bilhetinho especial de surpresa ou o “eu te amo” escrito no espelho do banheiro. Nada disso faz mais sentido. Com certeza era tudo mentira. Você passou dias, meses, anos da sua vida alimentando as esperanças de um ser humano indefeso e agora vai ter que queimar no fogo do inferno ao lado de Hitler e Judas.
Terminar um relacionamento é assumir a responsabilidade pelas mágoas, traumas e frustações do outro. É ser o bode expiatório das inseguranças alheias, o gatilho para aflorar as dores mais secretas do outro. Talvez por isso tantos casais continuem juntos durante anos, suportando viver em uma pseudofelicidade.
Terminar um relacionamento é um dos maiores atos de coragem que um ser humano pode ter. É saber se reestruturar a partir da própria dor, enquanto assume a responsabilidade pela dor do outro.
Apesar de todas as consequências, eu ainda prefiro ser a vilã que ser infeliz. Saint-Exupéry que me perdoe, mas tu te tornas eternamente responsável por aquilo que mantém na vida sem conseguir amar.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Para que servem as pesquisas

Sempre tive preconceito com matérias que começam da seguinte forma: “Uma pesquisa da Universidade de Cambridge, na Inglaterra...”. Primeiro porque eu particularmente não acho a introdução nem um pouco atraente e convidativa à leitura. Segundo, porque essas pesquisas são, ora óbvias demais, ora mais inusitadas que os temas do programa Christina Rocha.
Vou dar um exemplo: Uma pesquisa divulgada na revista Biological Psychiatry, no ano passado, mostrou que praticar atividade física aumenta a felicidade. Essa afirmação poderia até fazer diferença na época de Caim e Abel, mas em 2012, eu não vejo outro objetivo que não seja ajudar o editor a fechar o buraco de uma página, com uma bela imagem do Getty Images, de uma mulher fotografada na contraluz, correndo na praia.
Outro estudo revelou que taxas de suicídio, nos Estados Unidos, são ligadas à quantidade de música country que toca no rádio. Eu, por exemplo, tenho mais possibilidade de me matar ouvindo arrocha do que Shania Twain cantando Any Man Of Mine.
Apesar de todas as minhas restrições com pesquisas, eu juro que depois que comecei a tirar proveito delas, aumentei bastante minha qualidade de vida. Não posso negar que elas têm me ajudado muito na hora de argumentar minhas próprias teses (Essas que você pensa que criou sozinho, enquanto está escovando os dentes, mas tem alguém na Alemanha ganhando um dinheirão pra chegar à mesma conclusão).
Devo confessar que aproveito da credibilidade da palavra pesquisa, principalmente para conversar com pessoas que nasceram com o dom de discordar de tudo que você diz. Nessa hora você faz cara de Audrey Hepburn acabando de acordar e solta um “Isso foi publicado no Journal of the American Medical Association. Você tem que brigar com Harvard, não comigo”, e ganha mais alguns anos de sobrevida por evitar o estresse, mesmo escutando música country.
Se você, por exemplo, já tinha a certeza que homens que agridem, verbalmente ou fisicamente, os homossexuais, na verdade queriam mesmo era rolar na cama ao som de Evidências (na voz de Ana Carolina), agora já pode sustentar seu argumento na mesa de bar. Um estudo da Universidade de Georgia, nos Estados Unidos, mostrou que homofóbicos têm desejo sexual pelo mesmo sexo. Durante a pesquisa, todos foram colocados em uma salinha para assistir um vídeo com cenas de sexo entre homens e ficaram mais animados que Joelma do Calypso dançando o cavalo manco.
Você também pode ficar aliviado quando seu filho finge que já tomou banho ou fez a atividade, enquanto estava jogando Minecraft, já que um estudo canadense mostrou que crianças que mentem são mais inteligentes.
Outro benefício da pesquisa é poder comer pipoca sem peso na consciência, já que um estudo da Universidade de Scranton, na Pensilvânia, mostrou que a pipoca tem mais antioxidantes que frutas e vegetais. É claro que não vale colocar manteiga e leite condensado, mas se duvidar você até encontra uma que prove a importância do colesterol LDL no organismo.
A verdade é que as pesquisas são excelentes criações da humanidade pra argumentar aquilo que você queria dizer ou fazer, mas não tem coragem ou permissão. Nada como o respaldo da ciência para admitir, sem culpa, nossos devaneios.


O fabuloso destino

Podem me chamar de louca, mística ou esotérica, mas cada dia que passa eu acredito mais em destino. Se eu não tivesse fugido tanto das aulas de física, durante o ensino médio, certamente usaria alguma teoria convincente pra ratificar minhas observações.
Já que a única coisa que ainda lembro é a fórmula da velocidade média, vou ter que apelar pra qualquer teoria empírica ou apostar na mitologia e astrologia para sustentar meu argumento. Aliás, contar um mito grego com um personagem que utilizava os oráculos e misturar com um pouquinho de psicologia analítica é o que basta para ter vontade de tatuar “maktub” na nuca.
Quando eu digo que acredito que as coisas estão predestinadas a acontecer, não significa que a pessoa deverá sentar-se em uma cadeira e esperar acertar os números da Tele Sena sem ao menos comprar um título de capitalização.
Como disse José Saramago, “o destino desconhece a linha reta, tanto assim que antes de converter Rimbaud em traficante de armas, o obrigou a ser poeta em Paris”. Se a possibilidade da existência de um destino te trouxer um sentimento de acomodação é exatamente isso que a vida vai te dar em troca. Mas se a crença de que há um futuro predestinado te impulsiona a correr atrás de teus objetivos, então “levanta-te e anda”, porque está mesmo escrito.
Creio que um dos maiores conflitos humanos seja o desconhecimento de sua própria missão, seu verdadeiro destino. É isso que faz a maioria das pessoas viver eternamente em um movimento solitário de rotação e translação, sem sair de uma órbita particular.
Você passa o dia inteiro tocando violão, sonhando ser Paco de Lucía, vai tentar a sorte no The Voice, mas acaba se tornando funcionário público. Isso não significa que você não tenha talentos artísticos, mas ele (o destino) é um menino teimoso que só faz as coisas quando quer e bem entende. Por mais que você tente de todas as formas mostrar ao mundo que merece ganhar o Grammy Latino, o verdadeiro desfecho está totalmente fora do seu controle.
Enquanto você não descobrir e aceitar o seu verdadeiro destino, vai continuar nadando contra a correnteza, remando contra a maré, achando que tudo está dando errado, quando tudo está sendo apenas como deve ser.
É arriscado fazer esse tipo de comentário publicamente, pois pode parece um pensamento pessimista, que induz à apatia, mas na verdade é libertador. Primeiro, porque te livra da culpa pelo que não deu certo, depois te dá a serenidade necessária para assumir que algo mais forte que você está no controle, evitando assim a frustração.
Os filósofos estoicos já pregavam na Grécia Antiga, no século 4 a.C., o poder do determinismo cósmico. Pode até parecer um pensamento ultrapassado, com o propósito de te livrar da responsabilidade de tomar decisões, mas já existem pesquisas científicas atuais que mostram que a capacidade de escolha do cérebro não é consciente e o livre arbítrio não passa de uma mera fantasia. O próprio Albert Einstein, em sua teoria da relatividade sobre tempo e espaço afirmou que "a distinção entre passado, presente e futuro é uma ilusão".
Em praticamente todas as religiões e filosofias ouvimos falar de karma, lei de causa e efeito, provação, profecia, providência divina, fatalidade, acaso, sorte, conspiração do universo ou qualquer outra metáfora para definir a existência de um caminho predestinado. Nem Jesus Cristo escapou da própria sina e já foi logo dizendo pra Judas, pouco antes de ser crucificado: “O que fazes, faze-o depressa”.
Independente da crença de cada um, a vida vai continuar cheia de histórias de gente que sofreu uma fratura e acabou se casando com o ortopedista; desistiu de viajar e recebeu a notícia que houve um acidente na estrada; fez uma vasectomia e descobriu que vai ser papai; ou mudou o caminho para o trabalho e acabou escapando de um assalto. Destino ou coincidência? Melhor não tentar entender.
O importante é ter o destino com um aliado, como uma força impulsionadora que te dá um foco, e não uma energia desmotivadora, que te deixa fadado ao fracasso. Quando entramos em sintonia e fazemos as pazes com o nosso real propósito na vida, tudo começa a fluir melhor. O lado bom de acreditar que tudo está escrito é não perder a fé, mas como disse Shakespeare, “o destino é o que baralha as cartas, mas nós somos os que jogamos".