quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Sobre livros e pessoas


Certa vez li um texto do psicanalista Contardo Calligaris que dizia algo do tipo: “Quer escolher um psicanalista ou um psicoterapeuta? Verifique se ele lê literatura.” O autor não se referia a Augusto Cury, Daniel Goleman, James Hunter ou outros queridinhos dos terapeutas. Ele se referia à literatura-literatura, obra de ficção, romance literário.
No mesmo texto, Calligaris cita uma pesquisa publicada na revista Science que dizia que ler ficção literária melhora a teoria da mente, ou seja, um termo usado na psicologia que, em linhas gerais, significa a capacidade de compreender e elaborar a mente alheia.
Segundo a pesquisa, o hábito de ler ficção faz com que você consiga compreender melhor as experiências dos personagens, desenvolvendo maior empatia e compaixão pelas outras pessoas.
O mais impressionante é como isso na prática faz todo sentido. Não adianta ler todas as teorias de Freud, Lacan ou Jung, se você não consegue se colocar no lugar de uma mulher que foi violentada sexualmente, de um pai de família que ficou desempregado e não sabe como pagar a contas, de uma prostituta do subúrbio que precisa vender o corpo para sustentar três filhos ou de uma trapezista do circo que sonha em deixar os picadeiros para morar em São Paulo e fazer faculdade de nutrição.
A literatura te aproxima de diferentes realidades e faz você perceber que somos todos personagens de um grande livro de ficção e, de certa forma, interpretamos esses personagens na maioria das vezes por vontade própria, outras, por imposição do roteirista.
A partir do momento em que eu retomei o hábito de ler literatura de ficção – estava em uma fase onde só lia crônicas - comecei a enxergar as pessoas com mais tolerância, muito mais do que se eu tivesse lido dez livros de Skinner.
Quando eu era mais nova, imaginava que existia um mundo paralelo, onde viviam todos os personagens das histórias da literatura. Como se todos eles realmente tivessem alma e vivessem em uma realidade explicada pela física quântica, onde você poderia encontrar Macabéa tomando um chá das cinco com Capitu, ou Hércules jogando uma partida de poker com Hamlet.
Da mesma forma, nós, que julgamos viver o mundo “real”, estamos aqui vendo Donald Trump ser eleito à presidência dos Estados Unidos, Bob Dylan ganhar o Nobel de literatura e Kim Kardashian fazer seis mil selfies durante viagem ao México, exatamente como personagens, protagonistas e coadjuvantes.
O fato é que o mundo (real e fictício) vive de histórias: é disso que somos feitos. Se não temos o hábito de consumir histórias na posição de leitores, seremos incapazes de nos reconhecer em nosso próprio enredo.
A literatura nos ensina muito mais do que compreender a complexidade de cada indivíduo. Ela nos leva a perceber que cinco minutos em uma fila pode durar um livro inteiro e cinquenta anos de um casamento podem constar em apenas um parágrafo. O que importa mesmo é saber que sem virar a página não existe história e que finais virão inevitavelmente. E por mais estranhos ou imprevisíveis que pareçam, eles não são a melhor parte da obra. Serão sempre bonitos quando toda a história valer a pena.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Gente é pra brilhar


Adoro aquela frase de Caetano Veloso que diz que “gente é pra brilhar”, pois é isso mesmo que eu acredito. O corpo humano, formado basicamente por oxigênio, hidrogênio, nitrogênio e carbono, contém o mesmo material pelo qual são formadas as estrelas.
As estrelas brilham porque os gases encontrados em seu interior entram em fusão nuclear, liberando energia. Da mesma forma, o ser humano “brilha” quando ocorre um processo de “combustão” dentro dele, quando ele se sente completo, pleno e feliz.
Nenhum ser humano nasceu pra sofrer. Observem as crianças: elas são cheias de vida, sabem bem o que querem e têm uma energia incrível.
Se tem uma coisa que me deixa arrepiada é quando vejo uma pessoa exercendo seu total estado de plenitude. Às vezes vou num espetáculo e fico tão encantada que, enquanto tá todo mundo lá curtindo o momento, eu fico com vontade de chorar de tanta emoção, rezando pra ninguém perceber que meus olhos estão cheios de lágrimas. Um ser humano que brilha é lindo de se ver e isso me deixa realmente muito emocionada.
O problema é que tem gente que é especialista em apagar o brilho alheio. Normalmente isso acontece com pessoas que não sabem bem como desenvolver sua própria luz, ou aqueles que acham que só eles têm o direito de brilhar.
Sabe quando você conta que tem o sonho de cantar com Roberto Carlos no especial de Natal e a pessoa vem com aquela história de que isso é para poucos e é melhor você dar um Google no PCI Concursos e procurar um rumo pra sua vida? Você nunca ouviria isso de alguém que teve a honra de dividir o palco com o rei, ou de pessoas que definitivamente conhecem o significado da frase “realizar sonhos”. Observe a vida dessa pessoa que te botou pra baixo e veja que na maioria das vezes ela carrega uma série de frustrações.
Claro que não podemos viver eternamente num mundo de ilusão e fantasias, pé no chão é fundamental, mas se o que faz sua alma vibrar é cantar, faça de tudo para chegar ao seu destino, mesmo que você precise vender Jequiti ou ser executiva de uma multinacional para pagar as contas enquanto não realiza o seu sonho. Mesmo que você nunca cante no especial da Globo, tenha certeza que onde quer que você exerça o seu talento, ainda que tocando violão na festa de Natal da família, alguém vai encher os olhos de lágrimas ao captar sua emoção ao fazer o que realmente gosta.
Não exercer nosso estado natural de “estrela” é extremamente prejudicial à saúde. Vai de encontro ao principal propósito da vida, que é a plenitude. Mas não pense que para ser estrela você precisa estar nos palcos. Tem gente que é estrela construindo prédios, desenhando plantas, resolvendo equações, salvando vidas em cirurgias de alto risco, ou até mesmo vendendo botijão de gás (você precisa conhecer o cara que vende gás aqui na minha rua!).
Se você acha que sucesso é estar dentro de uma peça de alfaiataria, em uma Land Rover, voltando pra casa no engarrafamento das 19h, eu sinto muito em informar, mas tem muita gente que vive essa rotina à base de clonazepam e fluoxetina.
Tem gente exercendo seu brilho próprio nas sinaleiras, na cozinha de casa, em uma Kombi no Vale do Capão, tocando acordeom em um ônibus lotado, cortando unha de gato em pet shop (sei lá...). Cada qual tem sua maneira única de cintilar, de entrar em combustão, de vivenciar sua fusão nuclear. E quando isso acontece dá pra ver de longe, há anos-luz de distância. Pra quem duvida, dá só uma olhadinha no céu que você vai ver.

domingo, 30 de outubro de 2016

Como assim, digital influencer?


Estava assistindo a um desses programas de beleza na TV e eis que aparece uma menina dando um depoimento, cuja legenda dizia “digital influencer”.
Não lembro bem o nome dela, nem qual a dica que ela deu, já que meus neurônios ficaram um bom tempo em estado de inércia, atualizando o software. Claro que não foi a primeira vez que eu escutei o termo “digital influencer”, já tinha visto diversas outras vezes, mas ele vinha sempre como uma espécie de “subtítulo”. Fulana de tal, modelo e digital influencer; musa fitness e digital influencer; Youtuber, blogueira, palestrante, maquiadora, seja lá o que for e digital influencer... Agora “digital influencer”, puramente, como profissão exclusiva, com diploma e carteira assinada, foi a primeira vez.
Fiquei um tempão pensando nessa mudança de paradigmas e sobre a quantidade enorme de pessoas e profissões que se dizem influenciadores, gurus, treinadores, incentivadores, todos com a receita pronta para o sucesso e o mapa do caminho para ser feliz.
De uns tempos pra cá, surgiu uma imensa gama de coachs de vida, de carreira, de emagrecimento, de relacionamento, de saúde, financeiro, dentre tantos outros. É tanta gente ensinando gente o que fazer da vida, que dava até pra criar um livro tipo “Admirável Mundo Novo”, baseado no roteiro onde pessoas que não sabem o que quer da vida e ensinam pessoas o que fazer com as suas.
Claro que não estou criticando os grandes líderes, filósofos, pensadores e empreendedores (imagina a quantidade de seguidores que Jesus Cristo teria no Youtube!!). Me refiro às pessoas que ainda não criaram nada verdadeiramente consistente e se acham no direito de se autodenominar “influenciadores” só porque ganhou uma letra “k” ao lado do número de seguidores no  Instagram.
Os influenciadores sempre existiram e sempre existirão em toda história da humanidade. Desde aquele garoto - o mais popular da escola - que começou a usar saia e todos passaram a seguir, até a personagem da novela das nove que consegue fazer com que se esgotem todos os xampus de tamarindo das farmácias. Mas o fato é que tem muito Inri Cristo se achando Augusto Cury, muito tamagotchi se achando iPhone 7. E o pior: tentando encontrar nisso um sentido pra sua vida.
Lembre-se: ninguém nasceu para ser influenciador. Você nasceu para um propósito maior e se você for bom naquilo que se propõe, naturalmente as pessoas vão se inspirar em você.
Sem querer ser aquela tia chata, que não se adapta às evoluções da tecnologia, vou te dar um conselho: quando te perguntarem o que você quer ser quando crescer, escolha uma profissão, meu filho, daquela à moda antiga. Você pode até ser padeiro e se tornar um Olivier Anquier, mas esqueça esse negócio de dizer que quer ser influenciador se nem seu gato tá aceitando comer a ração que você escolhe.
Ou você acha mesmo que deve se autodenominar influenciador só porque resolveu ensinar as pessoas como fazer uma máscara de abacate pra hidratar o cabelo ou mostrar no Instagram sua nova paleta Naked da Urban Decay?
Influenciador de verdade era Osama Bin Laden, que mesmo escondido em uma caverna sem wi-fi, fazia as pessoas se matarem em nome de Alah. E você aí se achando o cruzamento do pastor Malafaia com a princesa Diana só porque deixa as pessoas com água na boca postando foto da sua sobremesa no Paris 6.
O verdadeiro influenciador defende uma causa, incentiva pela paixão e pelo talento. Ou você acha que Olympe de Gouges faria publieditorial pra Valisere ou gravaria snapchat no consultório do Dr. Rey com o slogan “mais resistência na sua prótese e na nossa luta”?
Como diria Renato Russo, é muita gente que “fala demais por não ter nada a dizer”. Enquanto isso, tô pensando em mudar de profissão para "digital observer”, só pra ver onde essa história vai chegar.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Desperta(dor)


Só quem sofre por antecipação sabe o quanto é ruim acordar às 4h38 e não conseguir dormir mais, porque sabe que o despertador vai tocar às 5h10.
O som do despertador me irrita tão profundamente que eu prefiro ficar de olhos arregalados olhando para a tela do celular do que escutar novamente a música tema de Pinóquio me arrancando de um sonho como um parto de rinoceronte.
Eu prefiro mil vezes encarar os segundos como um cangaceiro que observa sua presa, um olho aberto e outro fechado pra acertar a mira, desligando o despertador segundos antes dele cumprir sua função, mostrando que quem manda aqui sou eu, do que ser surpreendida por aquele susto que me corrói as vísceras, desperta crise de labirintite e incita um misto de depressão com crise de pânico.
Escuto uma porta se abrindo. Minha mãe percebe que estou acordada, vem perguntar o que aconteceu e ao descobrir que está tudo bem, dispara “sabe o que é isso? Crise de ansiedade”, e volta a dormir. Mãe sempre gosta de dar um pitaco e sair de cena e isso se perpetua pelo resto da vida, também chamado de superego.
A verdade é que nunca gostei que a dor me pegasse de surpresa. Desde criança quando sabia que tinha que ir ao dentista ficava meia hora antes pisando numa pedra de gelo para deixar meu corpo imune à dor. Mais ou menos quando você sabe que vai ser executado a tiros num campo da Indonésia, fecha os olhos e diz “vai, eu aguento”.
Soneca é para os fracos. Se a merda vai acontecer eu prefiro enfrentá-la logo e ainda provocá-la como criança birrenta, “nem doeu”, mostrando a língua. Eu encaro o despertador de frente nem que passe o resto do dia me sentindo o cobertor do Linus, aquele personagem do Snoopy que arrasta um paninho azul.
Podem me chamar de louca, mas eu prefiro mil vezes estar preparada para qualquer notícia ruim, imaginando o que eu faria da vida nos próximos vinte anos se eu fosse Stephen Hawking sem a inteligência de Stephen Hawking, ao som de Love By Grace, a receber de surpresa aquele golpe na jugular que dão na hora de matar um porco.
Esse negócio de “O que você faria se só te restasse esse dia” não funciona comigo. Eu passaria as últimas 24 horas me sentindo o pó da ampulheta.
Talvez por isso eu tenha tanto medo de cartomante. Se ela me fala que vou morrer daqui a vinte dias eu vou passar dezenove escutando “Canto Para a Minha Morte”, de Raul Seixas, no replay.
Não tenho maturidade emocional para aproveitar os últimos dois dedos, o último pedaço, a reserva da gasolina. Se um frasco de perfume que eu gosto muito está prestes a acabar eu deixo de usar faltando algumas gotinhas e me mantenho cheia de potes inacabados, com a validade quase vencida. “Só vai acabar quando eu quiser”. 1, 2, 3 e já. Nada de surpresas.
Não tem frase de Osho nem Sri Sri Ravi que me faça viver o presente se alguém me disser: “você só tem vinte minutos para mergulhar no mar do Caribe e depois disso um tsunami vai destruir todo hemisfério norte do planeta”.
Nunca vai entrar na minha cabeça essa ideia de que você tem um tempo limitado pra dormir e que, faça chuva ou faça sol, com chikungunya ou crise de enxaqueca, às 5h10 você vai ter que levantar. Eu nunca consigo descansar completamente com prazo limitado para o estágio REM.r o tou acordadae e me f me corrque ser durara sua presa, um outro aberto e outro fechado pra acertar a mira, e des
Eu admiro aquelas crianças que os pais dizem “só mais cinco minutos” e elas partem a correr com as bochechas rosadas e cabelos molhados de suor. Não sei lidar com nada que está prestes a acabar. Se eu soubesse que um dia morreria de infarto passaria o resto dos meus dias contando os batimentos cardíacos em ordem decrescente.
É melhor fingir que nada tem fim, que o despertador não vai tocar, que o perfume não vai acabar, que não vai ter tsunami, bomba de Hiroshima, tiroteio na BR. Não me contem nada disso. É melhor não saber. Me deixem viver na ilusão de que a dor não virá, senão eu vou dedicar toda minha vida a esperar por ela, como uma mãe de primeira viagem que passa os noves meses esperando a bolsa estourar.
Despertador é como a chegada da quarta-feira de cinzas antes da terça de carnaval. Se não for pra jogar confetes nem me chame que eu não vou.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O dia em que conheci Martha Medeiros


Não sei você, mas eu sou uma fã incondicional de crônicas. Palavra de origem grega, derivada do deus Chronos (personificação do tempo), serve para denominar um gênero literário que narra um determinado fato, obedecendo a ordem cronológica dos acontecimentos. Nada de firula, elipse, flashback, nem tentativa de prêmio Nobel. É como um barulhinho simples e compassado, feito um tic tac de um relógio, um assobio de um pássaro, uma brisa que passa repentinamente no fim da tarde e balança sutilmente os galhos da árvore.
A primeira vez que escutei a palavra “frívola” foi num desses textos xerocados que o professor lê durante o ensino médio, explicando o que seria a crônica como gênero literário. Confesso que fiquei meio ofendida quando descobri que meu estilo preferido era considerado uma espécie de subliteratura.
O próprio Carlos Drummond de Andrade descreve em um trecho da crônica “O Frívolo Cronista”: “Pode ser um pé de chinelo, uma pétala de flor, duas conchinhas da praia, o salto de um gafanhoto, uma caricatura, o rebolado da corista, o assobio do rapaz da lavanderia.” Qualquer coisa pode virar crônica, por mais inútil que pareça. Essa característica faz desse tipo de texto algo tão simples que parece que você está batendo um papo despretensioso com o autor, na varanda de casa, tomando um cabernet sauvignon, daqueles mais baratinhos do supermercado.
Essa linguagem acessível, narrando fatos aparentemente óbvios do cotidiano, fez a crônica ganhar fama de gênero menor, muitas vezes até confundido com autoajuda. Mas é justamente aí que mora a graça da coisa. É exatamente essa linguagem coloquial que ajuda a criar intimidade com o leitor e faz a crônica ser tão próxima de nossa vida que parece aquele segredo contado exclusivamente pra você.
A crônica preenche nossa carência quando precisamos conviver com pessoas desinteressantes e densas, ela te diz até mesmo aquilo que você pensa e não consegue falar, ela organiza ideias, ela fala tudo que você queria ouvir do seu melhor amigo, do seu psicanalista ou da pessoa que está ao seu lado na fila do banco. Ela coloca poesia na rotina, sem usar métrica, rima e ritmo rebuscado.
Grandes escritores já navegaram pelos mares das crônicas, desde Machado de Assis a Clarice Lispector, Rubem Alves, João Ubaldo Ribeiro, Fernando Sabino, Luis Fernando Veríssimo, dentre tantos outros. 
Se você é um fã assíduo de crônica, assim como eu, certamente já leu algum texto de Martha Medeiros. Quando eu soube que ela estaria na Festa Literária de Cachoeira (Flica) 2015, meu coração bateu igual aos dos fãs do Justin Bieber, armando barraca na porta da Arena Anhembi. 
Ela não faz ideia do planejamento que eu fiz para conseguir participar da mesa redonda em que ela estaria presente. Desmarquei consultas, cancelei trabalhos, contratei um motorista com um mês de antecedência, não me abati nem pela dose alta de antibiótico que comecei a tomar por conta de uma infecção de garganta que começou na noite anterior.
Enquanto aguardava no final da fila de autógrafos pensei em mil coisas que poderia finalmente ter a oportunidade de dizer, mas a cada pessoa que chegava até a mesa da autora imaginava que aquela pessoa já diria tudo que eu queria falar.
Aquela ali disse que é muito fã. Essa falou que Martha descreve perfeitamente tudo que ela sente. Essa disse que sente como se ela fosse sua melhor amiga. Ficava calculando, como uma criança que conta carneirinhos antes de dormir.
Finalmente chegou a minha vez. Eu praticamente não disse nada. Mal consegui balbuciar apenas que vim de Salvador. Até o e-mail dela eu pedi pra minha amiga pedir, pois não tive coragem sequer de ter essa audácia. Será que era muita invasão de privacidade?
Logo eu, que achava que Martha Medeiros era uma espécie de melhor amiga virtual. Era tão íntima que já sabia qual a música que ela gostava, o livro preferido, a marca do carro que ela dirigia, até podia escutar o canto dos passarinhos que a acordavam às 4h da manhã.
Logo eu, que já comprei quase todos os livros, que já assisti todas as entrevistas no Youtube, que reconhecia cada texto postado no Facebook sem os devidos créditos, que já fucei todos os htmls da internet para encontrar um contato dela, que achava incrível a forma como ela terminava os textos, tipo aquele nó que dá um acabamento perfeito na bainha.
Não disse absolutamente nada. Não queria repetir tudo que ela já tinha escutado naquela noite, afinal, o que eu tinha pra dizer era tão frívolo, tão coloquial, tão despretensioso. Assim foi o meu encontro: completamente silencioso, diante de tantos pensamentos. Tímido como uma crônica, que parece desinteressante e superficial, mas que esconde nas estrelinhas as nuances da alma humana.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Cachoeira


Durante a Festa Literária Internacional de Cachoeira a cidade estava completamente lotada de pessoas. Aproximadamente 35 mil visitantes, diziam as notícias. Mais que o número total de habitantes, de acordo com o último censo.
Estávamos sentadas em um restaurante da esquina, eu e uma prima, almoçando uma maniçoba, prato típico preparado com folhas de mandioca, enquanto escutávamos os primeiros acordes de uma banda de reggae que passava o som para o show que aconteceria naquela noite. “Stir It Up” instrumental: essa era a trilha sonora daquela sexta-feira escaldante.
Embalada por aquele clima contagiante de manifestações culturais e artísticas, perguntei, sem imaginar que o papo iria se estender: “Já imaginou se Cachoeira fosse uma pessoa?”. Minha prima deixou fluir a imaginação: “Ela teria uma cabelo black power, esvoaçante, e seria super gente boa”, sorriu.
Continuamos a traçar o perfil físico e psicológico daquela que seria a criatura mais legal de se conviver na face da Terra. Cachoeira andaria de sandália rasteira e vestidos longos. Não teria diploma de nível superior, mas saberia falar sobre qualquer assunto, dos seminários de Lacan às últimas crônicas de Gregório Duvivier.
Cachoeira escutaria reggae, jazz, blues, mas também não torceria o nariz pro pagode e o arrocha, pois sabe que no fundo tudo é manifestação cultural. Ela seria fã de cinema, teria a coleção completa de Woody Allen, beberia vinho, cerveja artesanal e usaria no pescoço um patuá de oxum.
Sua casa teria decoração vintage, repleta de obras de artistas contemporâneos do Recôncavo, onde receberia os amigos com bolo caseiro de tapioca, no final da tarde.
Cachoeira viajaria o mundo de mochila nas costas só para conhecer novas culturas, novas pessoas e respirar novos ares. Falaria francês, espanhol, alemão e estaria arriscando umas aulas de mandarim.
Cachoeira não teria preconceitos, nem sairia gritando com cartazes em manifestações. Com uma voz firme e sorriso simpático, conquistaria o que queria apenas pelo poder de persuasão. 
Passar uma tarde ao seu lado nunca seria entediante, pois tudo que ela mais teria era história pra contar, acompanhada de uma boa xícara de café, de coador, é claro. Todo mundo se sentiria bem ao lado dela, pediria conselhos, ofereceria carona, postaria selfie no Facebook.
Ela teria uma voz linda como de Concha Buika, suave e marcante. Na porta de casa, um azulejo escrito “Se for de paz, pode entrar”. Na biblioteca, de Dostoiévski à Haruki Murakami. Na playlist, de Carla Bruni à Sine Calmon.
Mas nem pense que ela seria chata ou metida à intelectual. Ela não escreveria textos imensos falando mal do Governo Dilma, ainda que não votasse no PT, não se daria o trabalho de pichar muros em protestos, não seria contra o casamento gay, nem contra os evangélicos, nem contra nada. Cachoeira não teria necessidade de chamar atenção, ainda assim atrairia todos os olhares com a elegante discrição de quem sabe o poder de poucas e boas palavras, ditas de maneira suave, como a brisa que corre no rio Paraguaçu.
Ela seria tão psicoanalisada, tão autoconfiante, que precisaria de pouco pra aparecer. No máximo uma tatuagem no pulso esquerdo, escrito “Let It Be”, em letras itálicas.
Pra quem não sabe, Cachoeira é uma cidade histórica do Recôncavo Baiano, mas para mim sempre será a moça de cabelos esvoaçantes que a natureza, em sua infinita bondade, a fez cidade, para que milhares de pessoas tivessem o prazer de desfrutar de sua companhia. 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Os novos pais


Eu era apenas uma criança de oito ou nove anos de idade, sentada no sofá da sala, observando meu pai colocar um CD de Raul Seixas para tocar. “Escuta a letra dessa música. Presta bem atenção e me diz o que achou”, disse ele.
Era “O trem das sete” (...) Vem surgindo de trás das montanhas azuis, olha o trem (...) fumegando, apitando (...) É o trem das sete horas, é o último do sertão (...)
“Tava na cara que esse tal desse trem só podia ser mesmo a morte”, pensei. Matei a charada de primeira, enchendo meu pai de orgulho, e anos mais tarde resolvi repetir o mesmo teste com meu filho.
Nem deu tempo de Raul aquecer as cordas vocais e meu filho logo disse: “Tira essa música horrível. Não quero ouvir mais não”, reclamou, sem a mínima motivação para interpretar do que se tratava aquele trem que não precisava de passagem nem bagagem.
Pode parecer chato demais exigir isso de uma criança, mas nesse momento me dei conta que talvez eu tenha vivido a última geração dos filhos que cresceram escutando as canções que tocavam na vitrola dos pais, com influências de Elvis Presley a Paulo Diniz.
Transitávamos de forma natural e tranquila entre os contos de Malba Tahan e gibis da Turma da Mônica, sabendo bem onde começava e terminava o nosso espaço. Assistíamos ao Show da Xuxa, mas sabíamos que tínhamos que fazer silêncio na hora de Brega & Chique. Tínhamos nossa cota de filmes infantis na locadora, mas acabávamos vendo Silêncio dos Inocentes, caso não tivesse nada melhor pra fazer em uma tarde chuvosa. Tudo isso sem pressão, sem censura e sem traumas.
Qual foi a criança dos anos 80 que nunca nunca sentiu medo quando Zé Ramalho começava a cantar “Mistérios da Meia-Noite” para anunciar a chegada do lobisomem na reprise de Roque Santeiro? Quem nunca passou uma tarde de domingo ouvindo Silvio Santos mandar abrir as portas da esperança? Quem nunca imitou a voz de Gil Gomes (do Aqui Agora) com os coleguinhas da escola? Qual foi o menino que não morria de curiosidade para assistir um trechinho da extinta Sexta Sexy da Band, escondido dos pais?
Não só assistíamos novelas, como sabíamos os nomes dos atores. Ou vá dizer que você não sabia que era Ney Latorraca que interpretava Vlad na novela Vamp?
As crianças de antigamente eram obrigadas a criar suas próprias estratégias para se adaptar ao universo dos pais e transitavam entre o mundo lúdico da infância e a rotina da vida os adultos, de forma natural e divertida.
Hoje, vivemos num mundo em que os pais modificam seus hábitos exclusivamente em prol dos filhos. Vivemos na ditadura do politicamente correto, das crianças engessadas e educadas pelo Discovery Kids, dos pais obrigados a decorar todas as letras das músicas da Galinha Pintadinha e que acreditam que sair de casa sem um tablet é tarefa mais difícil que os desafios do He-Man.
Toda programação da família é feita em prol da tentativa de ocupar a mente dos pequenos. As crianças não têm direito nem mais de sentir tédio e só vão para restaurante se tiver cardápio kids e Wi-Fi.
Os pais participam das reuniões escolares de maneira ansiosa, questionam o método pedagógico e indagam até qual a melhor forma de corrigir uma palavra que o filho escreveu errado na lição da escola. Quem não teve tempo de assistir Rio 2 tem motivo suficiente pra se sentir a pior das criaturas da face da Terra. Não saber o que são Minions ou nunca ter visto uma arena de beyblade é assinar um atestado de incompetência.
Antigamente crianças brincavam com crianças em um universo particular, criavam suas próprias regras e aventuras. Os adultos só apareciam para avisar que era hora de comer e tomar banho, como meros coadjuvantes, a exemplo das pernas da babá dos Muppet Babies.
Os pais de hoje sentem a necessidade de entrar em cena, rolar no tapete, se jogar na grama do parque. São pais fabricados, que escondem seus medos por detrás da coletânea de filmes dos Backyardigans.
Claro que não há nada de errado em proporcionar lazer aos filhos, brincar com a criança no chão, jogar videogame ou trocar o Jornal Nacional pelo Cartoon Network. O problema é quando a criança deixa de ter uma referência saudável de quem são seus pais, do que eles gostam, o que eles pensam, escutam ou leem, para viverem como filhos de robôs que leem Jean Piaget pra ajudar em um simples dever de casa.
Imagino esses filhos como ratinhos de laboratório, vítimas de um experimento científico de pais que jogam todas as suas frustrações pessoais na tentativa de se realizarem como "super pais". Apesar da justificativa de proteção aos filhos do mundo caótico em que vivemos, esse novo modelo de educação e demonstração de afeto desmascara uma sensação de culpa e o medo de fracassarem como pais.
A nova geração de pais inseguros cria seus filhos como se estivessem num reality show da Supernanny e esquecem que a melhor forma de educar é sendo autêntico.
Esse manual de instrução de “como ser pai no século XXI” retira das crianças o direto de ter a maior preciosidade da vida de um ser humano que é a referência e admiração pela imagem genuína do pai e da mãe.
Somos todos frutos das sinestesias da infância, do cheiro de café que o avô tomava no final da tarde, da Ave Maria que tocava no rádio de pilha da avó, da missa dos domingos que éramos obrigados a ir. São essas vivências e observações da essência individual de cada membro da família que cria um ser humano pensante, crítico e autêntico.
Quem não se conhece, não pode ajudar o outro a se conhecer. Quem não tem personalidade própria não pode ajudar o outro a conquistar sua autonomia. Vamos deixar de lado as receitas de bolo, modelos de criação americanizadas e regras de autoajuda, lembrando que o amor por si só é autoeducativo.