sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Quando o amor acaba


Um dia você percebe que os beijos já não são mais os mesmos, a admiração virou incômodo, a paixão se tornou pura compaixão e aquela pessoa não é mais o licor de cassis do seu creme de papaia ou o Robert Pattinson da sua Kristen Stewart.
Eis que no caminho florido rumo ao mundo de Oz, surge uma bifurcação e cada um precisa tomar um rumo diferente, mas na prática não é tão simples assim. O fim de um relacionamento pode ser tão sufocante quanto escalar o Everest sem uma bomba de oxigênio.
Ao escutar "não dá mais", o amor cede espaço para a raiva  e todos os momentos bons passam como flashes na cabeça daquele que foi rejeitado, com a certeza absoluta do quanto você só quis apenas “se aproveitar”. Ele descobre que de nada adiantaram os dias ensolarados que vocês dividiram o mesmo sorvete, as músicas que escutaram durante as viagens nas férias e a garganta fica preenchida por cada grão de pipoca que mastigaram no cinema, assistindo ao último filme de Woody Allen. 
Ele não consegue entender como você consegue ser tão cínico, mentiroso e incapaz de saber amar. Você se torna um assassino de sonhos, ladrão de tempo, usurpador de almas.
Por mais que você tenha todos os cuidados para terminar a relação sem machucar o outro, por mais que tente conversar, explicar os motivos de ter tomado aquela decisão, que tenha coragem de abrir seus sentimentos mais profundos e confessar suas maiores fraquezas, o indivíduo que foi rejeitado decide se tornar seu maior inimigo pro resto da vida.
Ele vai passar dias, meses, anos, escutando conselhos dos amigos e familiares sobre o quanto é um ser humano infinitamente melhor, mais inteligente, maduro e mais iluminado que você. Ele vai buscar todas as provas que garantam que você é a pessoa mais mau caráter da face da Terra e terá plena convicção de que você nunca vai encontrar alguém que te faça feliz. Ele vai traçar todo seu infeliz destino e construirá sua história ao longo dos anos com a certeza que você será uma pessoa sozinha e amargurada, terminando seus dias de vida num abrigo público para idosos, recebendo medicamentos fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Você imediatamente se tornará alguém ruim, egoísta, insensível, que não sabe dar valor às pessoas, que não sabe amar, que não gosta de ninguém. Ele vai torcer para que você nunca consiga conquistar seus objetivos, para que você se envolva nos piores relacionamentos, se case com um traficante, seja traída com a vizinha e abandonada com cinco filhos na fila do Bolsa Família e nesse momento lembre com arrependimento do dia em que você decidiu por um fim em um relacionamento perfeito.
Ele vai fuçar suas redes sociais em busca de provas do quanto sua vida não tem o mínimo sentido sem a presença dele e vai perceber o quanto você é fútil, infantil e egoísta, se perguntando “como um dia conseguiu gostar de uma pessoa desprezível como você”.
Em casos mais graves ele vai divulgar suas fotos íntimas na internet, vai te ameaçar de morte, vai abrir um processo na Justiça contra você ou até mesmo vai tentar o suicídio só pra te deixar com remorso pelo resto da vida. Tudo isso simplesmente porque você decidiu que não quer mais viver sua vida ao lado daquela pessoa. Porque você optou por dar um fim a um relacionamento desgastado e resolveu tomar um novo rumo. Porque você exerceu o direito de escolha e foi buscar sua felicidade, agora terá que aguentar as consequências de uma vida fadada ao fracasso.
Não importa o quanto você foi legal, amigo, companheiro, o quanto cuidou da pessoa enquanto ela estava doente, o quanto escolheu a dedo um presente especial para o dia dos namorados, o tanto que fez questão de deixar um bilhetinho especial de surpresa ou o “eu te amo” escrito no espelho do banheiro. Nada disso faz mais sentido. Com certeza era tudo mentira. Você passou dias, meses, anos da sua vida alimentando as esperanças de um ser humano indefeso e agora vai ter que queimar no fogo do inferno ao lado de Hitler e Judas.
Terminar um relacionamento é assumir a responsabilidade pelas mágoas, traumas e frustações do outro. É ser o bode expiatório das inseguranças alheias, o gatilho para aflorar as dores mais secretas do outro. Talvez por isso tantos casais continuem juntos durante anos, suportando viver em uma pseudofelicidade.
Terminar um relacionamento é um dos maiores atos de coragem que um ser humano pode ter. É saber se reestruturar a partir da própria dor, enquanto assume a responsabilidade pela dor do outro.
Apesar de todas as consequências, eu ainda prefiro ser a vilã que ser infeliz. Saint-Exupéry que me perdoe, mas tu te tornas eternamente responsável por aquilo que mantém na vida sem conseguir amar.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Educar para expressar

Tem certas informações, aparentemente irrelevantes, que a gente aprende na infância e por algum motivo permanece viva em nossa mente pro resto de nossa vida.
Uma das coisas que aprendi na escola e nunca esqueci é que Erasmo de Rotterdam já foi o “Glória Kalil” da renascença. Não foi exatamente dessa forma que o professor explicou, mas foi isso que minha mente modelo “Fantástico Mundo de Bob” pensou quando soube que o filósofo humanista havia escrito um tratado de civilidade. Isso mesmo! Um dos grandes pensadores da humanidade fez questão de criar um manual de comportamento para as crianças da época.
Não li esse livro e nem sei se as regras ainda se aplicam aos dias atuais, mas a verdade é que as pessoas estão precisando urgente de um tratado de civilidade para aprender como se comportar em sociedade.
Fico impressionada cada vez que vejo uma pessoa divulgar em uma rede social o quanto odeia aquele lugar e como não suporta mais ver tanta bobagem. As pessoas esquecem que redes sociais não têm conteúdo próprio, são seus próprios amigos que publicam o que está escrito ali. Amigos que você mesmo adicionou ou aceitou. Como você pode ofender gratuitamente essas pessoas?
Existe a possibilidade de parar de seguir, desabilitar o recebimento das atualizações ou até mesmo bloquear as solicitações de joguinhos. Há ainda a opção de simplesmente não fazer o login ou desabilitar sua conta. Ou seja, pra tudo tem jeito, menos pra gente que gosta de disseminar raiva e críticas sem necessidade.
Se pessoas que se dizem amigas andam tecendo esse tipo de comentário, quando existe a possibilidade do anonimato aí é que a situação fica mais grave ainda. Os comentários em vídeos do Youtube, por exemplo, é um campo minado virtual, repleto de racismo, homofobia e todo tipo de violência verbal.
Até o compositor Chico Buarque acabou sendo vítima da revolta online, quando foi chamado de “velho”, seguido de um “o que o álcool não faz com as pessoas?”.
A escritora Martha Medeiros teve a infelicidade de publicar a crônica “Eu não sou passsarinho”, no jornal Zero Hora, e recebeu uma sinfonia de insultos, mais alta que o canto dos os sabiás e rouxinóis, por afirmar que odiava ser acordada pelo canto dos pássaros às quatro da manhã. Alguns diziam: “Ridícula! Tem mais que parar de escrever e ir costurar”, outros: “Parece mesmo que o problema dela é a falta de passarinho”. E por aí vai...
A raiva do ser humano no mundo virtual é tão grande que tem gente que não se sensibiliza nem em casos de doença. Em nota publicada em um site de notícias, o título dizia: “Luta contra o câncer de mama: blogueira de beleza atrai mais de 100 mil internautas”. Foi o que bastou para um dos leitores comentar: “100 mil otários”.
Será que o prazer da agressão é mais satisfatório do que treinar a disciplina e controlar os impulsos negativos? Se você viu uma foto e achou que a pessoa foge dos seus padrões de beleza, precisa mesmo apelidá-la de algum nome científico de uma espécie em extinção da fauna silvestre? Se uma imagem despertou seus instintos sexuais mais primitivos, é mesmo necessário descrever uma posição do kama sutra numa linguagem tão peculiar que não se encontra nem nas composições da banda A Bronkka?
Num mundo onde há uma grande valorização da manifestação livre de opinião é preciso também incentivar o autocontrole nas pessoas. Não sou a favor da censura, mas quando a permissividade pela liberdade de opinião não tem uma base sólida na educação, voltamos à era primitiva, quando os instintos se sobressaíam diante da razão. Onde qualquer um fala o que quer e ouve o que não quer, um tratado de civilidade muitas vezes cai bem.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Para que servem as pesquisas

Sempre tive preconceito com matérias que começam da seguinte forma: “Uma pesquisa da Universidade de Cambridge, na Inglaterra...”. Primeiro porque eu particularmente não acho a introdução nem um pouco atraente e convidativa à leitura. Segundo, porque essas pesquisas são, ora óbvias demais, ora mais inusitadas que os temas do programa Christina Rocha.
Vou dar um exemplo: Uma pesquisa divulgada na revista Biological Psychiatry, no ano passado, mostrou que praticar atividade física aumenta a felicidade. Essa afirmação poderia até fazer diferença na época de Caim e Abel, mas em 2012, eu não vejo outro objetivo que não seja ajudar o editor a fechar o buraco de uma página, com uma bela imagem do Getty Images, de uma mulher fotografada na contraluz, correndo na praia.
Outro estudo revelou que taxas de suicídio, nos Estados Unidos, são ligadas à quantidade de música country que toca no rádio. Eu, por exemplo, tenho mais possibilidade de me matar ouvindo arrocha do que Shania Twain cantando Any Man Of Mine.
Apesar de todas as minhas restrições com pesquisas, eu juro que depois que comecei a tirar proveito delas, aumentei bastante minha qualidade de vida. Não posso negar que elas têm me ajudado muito na hora de argumentar minhas próprias teses (Essas que você pensa que criou sozinho, enquanto está escovando os dentes, mas tem alguém na Alemanha ganhando um dinheirão pra chegar à mesma conclusão).
Devo confessar que aproveito da credibilidade da palavra pesquisa, principalmente para conversar com pessoas que nasceram com o dom de discordar de tudo que você diz. Nessa hora você faz cara de Audrey Hepburn acabando de acordar e solta um “Isso foi publicado no Journal of the American Medical Association. Você tem que brigar com Harvard, não comigo”, e ganha mais alguns anos de sobrevida por evitar o estresse, mesmo escutando música country.
Se você, por exemplo, já tinha a certeza que homens que agridem, verbalmente ou fisicamente, os homossexuais, na verdade queriam mesmo era rolar na cama ao som de Evidências (na voz de Ana Carolina), agora já pode sustentar seu argumento na mesa de bar. Um estudo da Universidade de Georgia, nos Estados Unidos, mostrou que homofóbicos têm desejo sexual pelo mesmo sexo. Durante a pesquisa, todos foram colocados em uma salinha para assistir um vídeo com cenas de sexo entre homens e ficaram mais animados que Joelma do Calypso dançando o cavalo manco.
Você também pode ficar aliviado quando seu filho finge que já tomou banho ou fez a atividade, enquanto estava jogando Minecraft, já que um estudo canadense mostrou que crianças que mentem são mais inteligentes.
Outro benefício da pesquisa é poder comer pipoca sem peso na consciência, já que um estudo da Universidade de Scranton, na Pensilvânia, mostrou que a pipoca tem mais antioxidantes que frutas e vegetais. É claro que não vale colocar manteiga e leite condensado, mas se duvidar você até encontra uma que prove a importância do colesterol LDL no organismo.
A verdade é que as pesquisas são excelentes criações da humanidade pra argumentar aquilo que você queria dizer ou fazer, mas não tem coragem ou permissão. Nada como o respaldo da ciência para admitir, sem culpa, nossos devaneios.


O fabuloso destino

Podem me chamar de louca, mística ou esotérica, mas cada dia que passa eu acredito mais em destino. Se eu não tivesse fugido tanto das aulas de física, durante o ensino médio, certamente usaria alguma teoria convincente pra ratificar minhas observações.
Já que a única coisa que ainda lembro é a fórmula da velocidade média, vou ter que apelar pra qualquer teoria empírica ou apostar na mitologia e astrologia para sustentar meu argumento. Aliás, contar um mito grego com um personagem que utilizava os oráculos e misturar com um pouquinho de psicologia analítica é o que basta para ter vontade de tatuar “maktub” na nuca.
Quando eu digo que acredito que as coisas estão predestinadas a acontecer, não significa que a pessoa deverá sentar-se em uma cadeira e esperar acertar os números da Tele Sena sem ao menos comprar um título de capitalização.
Como disse José Saramago, “o destino desconhece a linha reta, tanto assim que antes de converter Rimbaud em traficante de armas, o obrigou a ser poeta em Paris”. Se a possibilidade da existência de um destino te trouxer um sentimento de acomodação é exatamente isso que a vida vai te dar em troca. Mas se a crença de que há um futuro predestinado te impulsiona a correr atrás de teus objetivos, então “levanta-te e anda”, porque está mesmo escrito.
Creio que um dos maiores conflitos humanos seja o desconhecimento de sua própria missão, seu verdadeiro destino. É isso que faz a maioria das pessoas viver eternamente em um movimento solitário de rotação e translação, sem sair de uma órbita particular.
Você passa o dia inteiro tocando violão, sonhando ser Paco de Lucía, vai tentar a sorte no The Voice, mas acaba se tornando funcionário público. Isso não significa que você não tenha talentos artísticos, mas ele (o destino) é um menino teimoso que só faz as coisas quando quer e bem entende. Por mais que você tente de todas as formas mostrar ao mundo que merece ganhar o Grammy Latino, o verdadeiro desfecho está totalmente fora do seu controle.
Enquanto você não descobrir e aceitar o seu verdadeiro destino, vai continuar nadando contra a correnteza, remando contra a maré, achando que tudo está dando errado, quando tudo está sendo apenas como deve ser.
É arriscado fazer esse tipo de comentário publicamente, pois pode parece um pensamento pessimista, que induz à apatia, mas na verdade é libertador. Primeiro, porque te livra da culpa pelo que não deu certo, depois te dá a serenidade necessária para assumir que algo mais forte que você está no controle, evitando assim a frustração.
Os filósofos estoicos já pregavam na Grécia Antiga, no século 4 a.C., o poder do determinismo cósmico. Pode até parecer um pensamento ultrapassado, com o propósito de te livrar da responsabilidade de tomar decisões, mas já existem pesquisas científicas atuais que mostram que a capacidade de escolha do cérebro não é consciente e o livre arbítrio não passa de uma mera fantasia. O próprio Albert Einstein, em sua teoria da relatividade sobre tempo e espaço afirmou que "a distinção entre passado, presente e futuro é uma ilusão".
Em praticamente todas as religiões e filosofias ouvimos falar de karma, lei de causa e efeito, provação, profecia, providência divina, fatalidade, acaso, sorte, conspiração do universo ou qualquer outra metáfora para definir a existência de um caminho predestinado. Nem Jesus Cristo escapou da própria sina e já foi logo dizendo pra Judas, pouco antes de ser crucificado: “O que fazes, faze-o depressa”.
Independente da crença de cada um, a vida vai continuar cheia de histórias de gente que sofreu uma fratura e acabou se casando com o ortopedista; desistiu de viajar e recebeu a notícia que houve um acidente na estrada; fez uma vasectomia e descobriu que vai ser papai; ou mudou o caminho para o trabalho e acabou escapando de um assalto. Destino ou coincidência? Melhor não tentar entender.
O importante é ter o destino com um aliado, como uma força impulsionadora que te dá um foco, e não uma energia desmotivadora, que te deixa fadado ao fracasso. Quando entramos em sintonia e fazemos as pazes com o nosso real propósito na vida, tudo começa a fluir melhor. O lado bom de acreditar que tudo está escrito é não perder a fé, mas como disse Shakespeare, “o destino é o que baralha as cartas, mas nós somos os que jogamos".