março 22, 2019

Nunca esquecerei de você, Gleiser

Muita gente ficou sabendo sobre o prêmio que o físico e astrônomo brasileiro, Marcelo Gleiser, ganhou esta semana por conseguir dialogar entre a espiritualidade e ciência.

O mesmo prêmio, o Templeton, já foi concedido a Madre Teresa de Calcutá, em 1973, e Dalai Lama, em 2012.

Fiquei sabendo da novidade através de uma amiga, que compartilhou a notícia comigo pelo direct do Instagram. Me resumi a responder “Que massa”, mas mal sabe ela que, ao fitar os olhos azuis de Gleiser, eu me sinto sendo encarada pelo meu surperego.

Vou explicar o que aconteceu. No ano de 2010, havia dois anos que eu tinha me formado em Jornalismo. Na época, eu trabalhava em uma editora de revistas e me pediram para escrever uma matéria sobre o artista plástico Vik Muniz, cujas obras estavam ilustrando a abertura de uma novela da Rede Globo.

Eu pesquisei direitinho sobre o artista. Não lembro se cheguei a ligar para ele, mas lembro que no texto não tinha grandes problemas. A grande tragédia aconteceu por causa da foto. Eu consegui transformar Vik Muniz em Marcelo Gleiser de uma forma que nem a ciência, nem a espiritualidade, explicam.

Me pediram para buscar algumas imagens de Vik Muniz no Google, que não tinham direitos autorais. Foi aí que eu cometi o maior erro de toda minha carreira jornalística: apareceu uma foto de Marcelo Gleiser com o titulo “Vik Muniz” e eu encaminhei a imagem para minha editora.

Passaram-se alguns meses. Eu nem lembrava mais dessa matéria, quando o diretor da empresa entrou na redação, jogou a revista em cima da mesa que estava ao meu lado, me olhou nos olhos e perguntou: “Quem é esse cara?”, apontando para a foto de Gleiser. Devolvi, gaguejando, a pergunta: “V-i-k M-u-n-i-z?”.

Não. Não era ele. Era o físico brasileiro e seus olhos azuis, porém, já era tarde demais. A revista já tinha sido impressa em milhares de cópias e já tinha sido entregue em um cocktail de lançamento, em São Paulo (Só de lembrar disso, me dá um arrepio na alma).

Até hoje não sei como não fui demitida naquele dia. Levei um bom tempo para conseguir falar abertamente sobre meu erro e, peço desculpas, caso Marcelo Gleiser leia algum dia esse texto.

Tenho certeza que se ele ganhou o mesmo prêmio que Madre Teresa de Calcutá e Dalai Lama, ele vai me perdoar. Talvez não tenha sido tão ruim ser Vik Muniz por um dia. Se trocarem minha foto por uma de Cleo Pires, eu tô aceitando.

janeiro 02, 2019

Por que escrevo?

Numa dessas reflexões clichês de fim de ano andei pensando bastante sobre o motivo pelo qual escrevo.

Desde pequena, quando me perguntam o que gosto de fazer, costumo responder: “Escrever”. Mas será mesmo que o simples fato de sentar em frente a um computador e digitar em um teclado é uma das coisas que mais me dá prazer na vida? Definitivamente, não.

O que me dá prazer é dançar, ouvir música, uma taça de carménère, tomar banho de mar, o biscoito de coco que só minha tia Joelma sabe fazer, dentre outros detalhes que poderia continua citando. Escrever é mais uma necessidade, como escovar os dentes ou cortar as unhas do pé. Não é o ato mais prazeroso do mundo, mas você precisa fazer, senão terá sérios problemas.

Foi aí que cheguei à conclusão que escrevo, na verdade, para me conectar com pessoas. Poderia pintar um quadro, compor uma música, tocar um instrumento, mas optei por costurar palavras no papel. Quando escrevo com a alma, me sinto uma artesã, mudando parágrafos de local, buscando sinônimos, fechando os olhos e criando conexões e metáforas que expliquem exatamente como vejo o mundo.

Às vezes me incomoda as vistas, me dói o ombro, mas a sensação de receber uma mensagem de alguém dizendo: “Era exatamente isso que eu queria dizer, mas não sabia como”, não tem preço.

Vamos ser honestos: ninguém escreve para ser criticado. A gente quer mesmo é encontrar nossa tribo. Pessoas que compactuam dos mesmos pensamentos e sentimentos. Eu escrevo para ter pertencimento. Entre 7,6 bilhões de habitantes, estamos conectados nesse momento e isso é mágico.

Se você está aqui lendo esse texto, entre tantas coisas que poderia estra fazendo, entre tantos conteúdos disponíveis na internet, já temos algo em comum. É isso que importa para mim: essa conexão.

Palavras, por mais simples que pareçam, podem mudar o dia de alguém. Escrita sem sentimento é texto de MS-DOS. O que gosto de fazer é despertar sentimentos e afinidades.

Se você gostou do que leu, já subimos mais um degrau na afinidade. Já dá até para compartilharmos uma taça de carménère, ou um biscoito de coco (não necessariamente nessa ordem). Esse é o sentindo real da coisa, se é que você me entende. Para mim, isso basta.

janeiro 17, 2018

Tomar juízo

 

Toda vez que eu termino de falar com minha avó, ao telefone, ela me deseja um monte de coisas boas e finaliza com a palavra “juízo”. Minha resposta é sempre a mesma: “Juízo eu não quero, não”. Nós damos risada, ela finge que ficou assustada com a resposta, mas deixa no ar aquele clima de cumplicidade, de quem sabe que no fundo eu tenho razão.

O ritual já se repete há anos. Ela continua cumprindo seu papel de avó, me desejando uma boa dose de prudência na vida; eu continuo cumprindo meu papel de neta, garantindo meu lado cult rebelde; e nós continuamos cumprindo nosso papel em concordar que a vida tem muito a ser vivida e juízo demais aprisiona.

Não que eu queira viver de forma irresponsável, mas juízo em excesso é inimigo da plenitude. Juízo é aquele amigo invejoso e covarde, que se disfarça de protetor, mas vive te criticando, te punindo, reprimindo e, no fundo, queria estar no seu lugar.

Claro que não saio por aí descumprindo horários, ultrapassando o sinal vermelho ou furando a fila de prioridade. Quando falo em perder o juízo, me refiro em se livrar do julgamento, dos bloqueios, dos traumas, dos limites que nos foram postos pela sociedade, ou até mesmo por nossos pais, na infância.

Nenhum ser humano consegue ser livre e feliz se for comandado pelo superego que, na maioria das vezes, te faz de refém.

Ao invés de juízo, deveríamos desejar, uns aos outros, coragem, que significa agir com o coração. Juízo é petição, coragem é sinfonia.

As melhores decisões que já tomei na vida foram totalmente sem juízo. Daquelas que você pensa em desistir nos últimos minutos do segundo tempo, mas acaba fechando os olhos e indo.

Não quero incentivar pessoas a cometerem atos irresponsáveis, que façam mal a si próprio ou à outras pessoas, mas desde que você não tenha sido diagnosticado com nenhum tipo de psicose ou psicopatia, só tenho um conselho a te dar: perca o juízo.

Tome banho na chuva, viaje sem rumo, pinte o cabelo, dance até amanhecer, esqueça a dieta, se apaixone, mude de casa, cante “Evidências” no karaokê, case, separe, acampe, faça novas amizades, tatue o nome do seu cachorro, faça aula de trapézio, durma uma semana em uma tribo indígena, escute alto música brega, diga uma palavra de carinho a um desconhecido na rua, experimente sabores exóticos, aprenda a tocar um instrumento… Poderia continuar dando inúmeras sugestões, mas cada qual sabe suas necessidades e limitações.

Certa vez, conheci uma mulher que não conseguia andar descalça, porque seu pai a colocava de castigo quando a encontrava sem sapatos, durante a infância. Para ela, perder o juízo era simplesmente conseguir colocar o pé na grama.

A verdade é que, como diria Clarice Lispector: “Perder-se também é caminho”. Com uma boa dose de amor no coração, ninguém precisa de juízo. Ainda bem que minha avó concorda comigo.

 

 

janeiro 16, 2018

Petit Gateau

 

Tem uma frase de Jorge Luis Borges, no início da biografia de Freud, escrita por Elisabeth Roudinesco, que diz: “Um homem só morre efetivamente depois que o último homem que o conheceu morre também”.

Lembrei dessa frase no último domingo, quando meu filho pediu um petit gateau, como sobremesa, depois do almoço. Não que Jorge Luis Borges tenha nenhuma ligação com petit gateau, nem muito menos Freud, já que pelo menos até onde se sabe não há nenhum registro do pai da psicanálise degustando um bolinho francês ao lado de Charcot, enquanto estudava em Paris.

A frase veio à mente porque, ao provar um pedacinho da sobremesa, tive uma lembrança bem vívida da infância. Algum ingrediente daquele petit gateau, especificamente, era o mesmo que tinha nos bolos de uma senhora que fazia doces, lá numa cidadezinha do interior da Bahia, onde eu morava, no início da década de 90.

Me lembro pouco de Dona Catarina. Das raras lembranças que guardo na memória, me recordo que a porta da casa dela era de madeira e havia duas janelinhas, daquele modelo antigo que não faço a mínima ideia como se chama.

Uma das janelinhas ficava sempre aberta, por onde exalava um delicioso cheiro de algo parecido com baunilha, manteiga ou farinha láctea. Não consigo descrever exatamente, mas era um aroma que causava uma reação sinestésica, uma mistura de afeto, gentileza e muita, muita habilidade em fazer os melhores bolos da cidade.

É aí que entra a frase de Borges. Já se passaram mais de vinte anos o cheiro dos bolos de Dona Catarina ainda permanece na minha memória, mesmo sem ela estar fisicamente presente nesse planeta. Isso me fez pensar o quanto que é importante seguirmos os nossos verdadeiros dons, se quisermos viver o máximo de tempo possível, quiçá, tentarmos alcançar uma audaciosa imortalidade.

O tempo que você vive não é aquele em que você passa aproveitando as maravilhas do mundo ou degustando petits gâteaux, mas sim, o tempo que suas ideias e ações permanecem e ecoam nas gerações futuras.

Dona Catarina não precisou criar a Apple para marcar a vida de alguém. Ela não criou o bitcoin, não fundou startups, nunca fez stories no Instagram, não tinha currículo no LinkedIn, mas marcou minha infância e a de muita gente com algumas gotas de essência de baunilha e claras batidas em neve, o que só me faz crer que petit gateau talvez tenha mais a ver com Freud do que se imagina e que Jorge Luis Borges continua sendo um dos melhores escritores da atualidade.

novembro 16, 2016

Sobre livros e pessoas

Certa vez li um texto do psicanalista Contardo Calligaris que dizia algo do tipo: “Quer escolher um psicanalista ou um psicoterapeuta? Verifique se ele lê literatura.”

O autor não se referia a Augusto Cury, Daniel Goleman, James Hunter ou outros queridinhos dos terapeutas. Ele se referia à literatura-literatura, obra de ficção, romance literário.

No mesmo texto, Calligaris cita uma pesquisa publicada na revista Science que dizia que ler ficção literária melhora a teoria da mente, ou seja, um termo usado na psicologia que, em linhas gerais, significa a capacidade de compreender e elaborar a mente alheia.

Segundo a pesquisa, o hábito de ler ficção faz com que você consiga compreender melhor as experiências dos personagens, desenvolvendo maior empatia e compaixão pelas outras pessoas.

O mais impressionante é como isso na prática faz todo sentido. Não adianta ler todas as teorias de Freud, Lacan ou Jung, se você não consegue se colocar no lugar de uma mulher que foi violentada sexualmente, de um pai de família que ficou desempregado e não sabe como pagar a contas, de uma prostituta do subúrbio que precisa vender o corpo para sustentar três filhos ou de uma trapezista do circo que sonha em deixar os picadeiros para morar em São Paulo e fazer faculdade de nutrição.

A literatura te aproxima de diferentes realidades e faz você perceber que somos todos personagens de um grande livro de ficção e, de certa forma, interpretamos esses personagens na maioria das vezes por vontade própria, outras, por imposição do roteirista.

A partir do momento em que eu retomei o hábito de ler literatura de ficção – estava em uma fase onde só lia crônicas – comecei a enxergar as pessoas com mais tolerância, muito mais do que se eu tivesse lido dez livros de Skinner.

Quando eu era mais nova, imaginava que existia um mundo paralelo, onde viviam todos os personagens das histórias da literatura. Como se todos eles realmente tivessem alma e vivessem em uma realidade explicada pela física quântica, onde você poderia encontrar Macabéa tomando um chá das cinco com Capitu, ou Hércules jogando uma partida de poker com Hamlet.

Da mesma forma, nós, que julgamos viver o mundo “real”, estamos aqui vendo Donald Trump ser eleito à presidência dos Estados Unidos, Bob Dylan ganhar o Nobel de literatura e Kim Kardashian fazer seis mil selfies durante viagem ao México, exatamente como personagens, protagonistas e coadjuvantes.

O fato é que o mundo (real e fictício) vive de histórias: é disso que somos feitos. Se não temos o hábito de consumir histórias na posição de leitores, seremos incapazes de nos reconhecer em nosso próprio enredo.

A literatura nos ensina muito mais do que compreender a complexidade de cada indivíduo. Ela nos leva a perceber que cinco minutos em uma fila pode durar um livro inteiro e cinquenta anos de um casamento podem constar em apenas um parágrafo.

O que importa mesmo é saber que sem virar a página não existe história e que finais virão inevitavelmente. E por mais estranhos ou imprevisíveis que pareçam, eles não são a melhor parte da obra. Serão sempre bonitos quando toda a história valer a pena.

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